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26/10/2010O centenário da República Portuguesa - Ramos André
26/10/2010
Publicado no Diario de Pernambuco - 26.10.2010
jramosandre@ig.com.br
Amonarquia Portuguesa arrastava-se com muita dificuldade desde a mudança da Corte para o Brasil, sacudida pelos ventos da Revolução Francesa, pela afrontosa permanência dos ingleses cessado o perigo napoleônico, pela crise econômica, moral e cívica e pela ausência do Rei no Rio de Janeiro. Surgem os movimentos liberais, a revolução do Porto de 1820 que limitou os poderes do monarca na Constituição de 1822 e que D. João, para salvar a Coroa, aceitou por antecedência, retardando a exigência de seu rápido retorno a Lisboa. Seguiu-se a guerra civil, 1928/1934, que envolve os dois irmãos, em busca do trono vago pela morte de D. João VI. De um lado o nosso Imperador D. Pedro, liberal, que as Cortes reconheceram como herdeiro, que abdicara do trono do Brasil em favor de seu filho, Pedro II; e D. Miguel, absolutista. O liberalismo venceu e mais tarde Da. Maria II, carioca, assumiu a coroa portuguesa. A essa efervescência política somou-se a tragédia do regicídio,que vitimou D. Carlos e o seu herdeiro D. Luiz, 1907, acusados de ceder às pressões do ultimato inglês sobre o "mapa Cor de Rosa" e a consequente perda de um pedaço de África. Alfredo Keil, compôs uma marcha guerreira de protesto à usurpação inglesa e apelando aos brios nacionais: "Heróis do mar, nobre povo....às armas, às armas, contra os canhões marchar, marchar", até hoje o hino de Portugal. O descontentamento era grande. Chagara a hora da mudança.
No dia 5 de outubro de 1910 o exército saiu às ruas, o povo aplaudiu e, da sacada da Câmara Municipal de Lisboa, foi proclamada a República. O Rei D. Manuel retirou-se para o exílio. Não houve sangue nem destruição, nem um programa estrutural. Uma república idealista, parlamentarista, honrada, república dos "bigodes", patriótica e anticlerical, herança do positivismo francês.Ao longo de 16 anos, os "chefes" não se entendiam, os governos eram efêmeros, foram mais de cinquenta, anarquia, inflação e o descalabro financeiro assustavam.
Por isso, o General Gomes da Costa, no dia 28 de maio de 1926 subleva a tropa, cuja vitória fácil põe fim à primeira República, acabando por instalar em 1933 uma República Unitária Corporativa, patriótica, clerical, desenvolvimentista de início, e estadonovista, que daria lugar à ditadura de Salazar. Pugnando por sua neutralidade colaborante, evitou que Portugal entrasse no conflito mundial. No final conseguiu sair ileso, mas sucumbiu à sua teimosia da guerra das "colônias".
E foram "os capitães" de África, que no dia 25 de abril de 1974 deram um "basta" ao sofrimento da família portuguesa, enlutada pelos filhos que morriam na guerra ou fugiam para outros países, quando se aproximava o ingresso no exército, contrários à guerra colonial. Mais uma vez uma revolução sem sangue nem vinganças. Alegria, canções e cravos no cano das armas foram a tônica. "Baixada a poeira" das conseqüências da virada , um novo estatuto político, o ingresso na União Europeia, o desenvolvimento e o equilíbrio partidário, um Presidente da República com um certo poder moderador e um parlamentarismo civilizado, vão construindo um Portugal digno do convívio das nações democráticas, e respeitado no mundo.
Parabéns ao povo português pela mudança de regimes e de governos sem grandes traumas.
