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19/07/2010O beijo - João Bosco Tenório Galvão
19/07/2010
Publicado no Diario de Pernambuco - 19.07.2010
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Obeijo como o conhecemos é um ato de inúmeras motivações, quase intelectual. Já serviu a todos os propósitos que movem a natureza humana. Foi instrumento de bajulação dos poderosos, pois os reis e nobres admitiam e privilegiavam alguns, autorizando serem beijados na boca quando os beijoqueiros eram nobres e nos pés quando da rafameia. Converteu-se em mercadoria, pois é vendido por homens e mulheres de vida aparentemente fácil. Foi e é ato de reconhecimento, pois se beija com afeição aos benfeitores. É ato de fé pois beatas e beatos beijam os santos, como Madalena, a Santa, beijou os pés de Jesus. Foi exemplo de traição, por Judas na troca do Mestre por trinta dinheiros. É costume russo, pois na terra dos cossacos e dos czares os homens também se beijam e rebeijam com vigorosos abraços. Do mesmo jeito, é moda entre os comandos dos mafiosos quando anunciam suas fraternas sentenças de morte. O beijo é futuro como desejo e já foi, na melancolia do poeta paraibano - véspera - do escarro. O beijo varia por meio dos costumes de cada nacionalidade. Alguns tipos de beijo, como o grego, são impublicáveis nesta página. O beijo em diversas circunstâncias é afago, ofensa, distinção, manifestações de alegria e dor, de luto e vida, de derrotas e vitórias. A maneira de expressar o beijo pode ser com um sopro, com um gesto de mão, por uma promessa ou por uma expectativa. O beijo pode ser inclusive roubado, e como tal passa a ser dos melhores. Pode ser rotulado de selinho, como mero cumprimento e ser chamado de língua ou beijo francês, geralmente dado às escondidas. Quem o experimenta pela primeira vez não esquece a sua prática, pois o beijo é uma das portas do paraíso humano. Por ele dois corpos viram um e esta unidade nos torna felizes e sonhadores.
O beijo não é só a movimentação de vinte e nove músculos da face, mas uma fusão de corpos, que faz queimar os corações e, às vezes, os juízos dos enamorados. É praticado pela boca, mas o beijo não vem da boca, vem do infinito que existe em nós. Por um beijo muitos reinados foram desperdiçados e muitos perderam, literalmente, as cabeças. Pelo beijo somos possuídos por uma sensação letárgica, que nos confere uma espécie de abandono, com a impressão que o tempo não passa. O beijo quando vem com amor é, sobretudo, o partilhar com a cara metade o infinito. O beijo amoroso começa com um olhar, com o afagar das mãos, com a carência recíproca, é o mais ambicioso, pois se pretende eternizar. Quem nunca beijou não consegue contemplar as estrelas, pois tem a limitação dos cogumelos.
