O avestruz do consumo - José Carlos L. Poroca

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16/11/2010

O avestruz do consumo - José Carlos L. Poroca

16/11/2010
O avestruz do consumo - José Carlos L. Poroca
Publicado no Diario de Pernambuco - 16.11.2010

jcporoca@uol.com.br

Se não bastassem as preocupações e incertezas, surgiu mais uma para mexer com a cuca. Até há pouco, estava convencido que pertencia à classe média, sem saber com exatidão em qual faixa da faixa me encontrava: baixa, média ou alta. A dúvida sempre surgia quando confrontava a receita com os limites da outra ponta, o rol das contas. Ora, estava num ponto tal; noutra, no outro canto; numa terceira, enquadrado em escala apelidada de emergente, a poucos centímetros da riqueza. Tudo balela. Estava em faixa estreita - não mais que 20 cm -, tendo, numa margem, o paraíso e, na outra, o precipício, ou seja, era obrigatório comportamento de malabarista para atender equação renda x orçamento. Nem sempre funcionou, é bom ressaltar.

Agora, eis que surge a nova classe média. Sim, bastam três salários mínimos para sair da faixa anterior e pular para a seguinte. Primeira contestação: estou desaprendendo feio e o caminho do emburrecimento vem sofrendo processo de aceleração: se estava a uns 30Km/hora, corro o risco de ser multado por excesso de velocidade. Vejam aonde quero chegar: se tiver uma renda de R$ 1.530,00, estou a poucos passos do paraíso e, o que é melhor (ou pior), poderei, a partir de agora, fazer tudo (ou quase tudo) que, no passado, estava restrito a idiotas - assim como eu -, que achavam que pertencer à classe média era o melhor dos mundos. Não era e quem acreditou receberá troféu (de idiota) e o mesmo destino dos que nos antecederam.

Mais da metade da população economicamente ativa passou a integrar a nova classe média. Podemos - nós, da antiga média, e os novos integrantes do clube - fazer tudo que os 'ricos' de outros países já faziam desde o século passado. Podemos comprar casas (uma para moradia e mais duas para veraneio: praia e campo), automóveis (no mínimo uns dois, para não interferir na harmonia familiar), viajar para o exterior (pela ordem: EUA, EUA e EUA - uma de cada vez), comprar roupas de grife, televisores gigantes de alta definição, celulares com 1001 funções, notebooks coloridos com memória para guardar os arquivos do Planalto, etc.

Chegamos ao paraíso sem sentir qualquer tipo de dor. E por falar nela, registre-se que não é mais problema, foi para o espaço. A nova classe média - a dos três SMs - também passou a ter acesso ao que existe de mais 'moderno' na medicina. Agora, pode dar uma esticadinha no couro, sem dor dupla. Na segunda dor (hora da conta), tudo será facilitado: poderá ir até o Carnaval do ano seguinte e se estender, se preciso for, até o São João. Narizes, barrigas e bochechas estão no catálogo e podem ser ajustados dentro de planos especiais de pagamento.

A nova classe média é o avestruz do consumo: consome tudo, consome muito e está fazendo a alegria de muita gente. Basta ter dois ou três cartões e, em alguns casos, nada de fiador, nada de avalista: basta provar que é consumista e integrante do clube. O crédito é imediato. O risco é pequeno - para quem dá o crédito, claro - e está aí à disposição, aos bilhões. Só não entra quem não quer. Ou quem tem juízo.
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