O Amor no Contemporâneo - Antônio Campos

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06/09/2010

O Amor no Contemporâneo - Antônio Campos

06/09/2010
O Amor no Contemporâneo - Antônio Campos
Publicado na Folha de Pernambuco - 06.09.2010

Nossa rea­li­da­de, de­no­mi­na­da “mo­der­ni­da­de lí­qui­da” por Zygmunt Bauman em seu livro O amor lí­qui­do, é a ima­gem de uma so­cie­da­de iso­la­da, egoís­ta, sem va­lo­res mo­rais e éti­cos. É um mundo con­fu­so e com­ple­xo. A fra­gi­li­da­de dos vín­cu­los hu­ma­nos gera sé­rias di­fi­cul­da­des em nossa ca­pa­ci­da­de de amar. Na era da co­mu­ni­ca­ção, oca­sio­na­da pelos ce­lu­la­res e pela in­ter­net, reina a in­co­mu­ni­ca­bi­li­da­de, pois não nos apro­fun­da­mos mais em nada na era di­gi­tal e não co­mu­ni­ca­mos o es­sen­cial. O fe­nô­me­no da so­li­dão cres­ce ape­sar de todas as redes so­ciais.

Estamos pri­vi­le­gian­do re­la­cio­na­men­tos em “redes” so­ciais vir­tuais, que são, na ver­da­de, su­per­fi­ciais e frá­geis. Cito, mais uma vez, o pen­sa­men­to de Bauman que con­si­de­ra as re­la­ções so­ciais reais como bên­çãos em um mundo de “fu­rio­sa” in­di­vi­dua­li­za­ção. Torna-se mais evi­den­te que o fra­cas­so do amor mo­der­no está atre­la­do ao fra­cas­so da co­mu­ni­ca­ção.

O filme 2046 - Segredos do Amor, do ci­neas­ta chi­nês Wong Kar Wai, re­tra­to da par­cia­li­da­de do ero­tis­mo con­tem­po­râ­neo, tem como prin­ci­pal ob­je­ti­vo mos­trar o fim da ple­ni­tu­de, da in­tei­re­za. Para ele, o ver­da­dei­ro amor é im­pos­sí­vel. Ou me­lhor, só o par­cial exis­te e é exa­ta­men­te isso que nos ex­ci­ta. A in­com­ple­tu­de é a única pos­si­bi­li­da­de hu­ma­na. Apesar da bri­lhan­te visão do ci­neas­ta de Hong Kong, a pró­pria his­tó­ria e a gran­de arte bus­cam negar essa im­pos­si­bi­li­da­de.

Apesar de es­tar­mos pre­sen­cian­do dia-a-dia as mu­dan­ças tec­no­ló­gi­cas e cul­tu­rais, em tem­pos pós-mo­der­nos, não é de hoje que as pes­soas vêm mu­dan­do o modo de ser, agir e pen­sar. Há mais de trin­ta anos o so­ció­lo­go, his­to­ria­dor e pro­fes­sor norte-ame­ri­ca­no, Richard Sennett, afir­mou que es­ta­vam sur­gin­do mu­dan­ças entre as es­fe­ras da vida pú­bli­ca e pri­va­da. Ele acre­di­ta­va ainda que o es­va­zia­men­to da vida pú­bli­ca traz uma série de pro­ble­mas ao homem con­tem­po­râ­neo. O es­cri­tor já per­ce­bia que a che­ga­da de uma “ideo­lo­gia da in­ti­mi­da­de” trans­for­ma ca­te­go­rias po­lí­ti­cas em psi­co­ló­gi­cas.

Ao dis­cu­tir­mos a crise do amor e dos laços hu­ma­nos na con­tem­po­ra­nei­da­de, per­cor­re­mos um ca­mi­nho his­tó­ri­co, que vai desde o amor ro­mân­ti­co ao re­la­cio­na­men­to amo­ro­so na pers­pec­ti­va de gê­ne­ro. Passamos pela crise do ro­man­tis­mo, em di­fe­ren­tes ver­sões, até às novas for­mas de vín­cu­lo entre os ho­mens e mu­lhe­res.

As coi­sas estão tão mu­da­das de uns tem­pos para cá que po­de­mos per­ce­ber a am­bi­gui­da­de exis­ten­te nessa mu­ta­ção men­tal. Os fi­lhos, por exem­plo, são mui­tas vezes, con­si­de­ra­dos ob­je­tos de con­su­mo emo­cio­nal. Apesar de serem ca­pa­zes de des­per­tar os mais puros sen­ti­men­tos hu­ma­nos, estão dis­pu­tan­do com o co­mér­cio o tí­tu­lo de bem mais va­lio­so. O ca­pi­ta­lis­mo tem como meta for­ne­cer subs­ti­tu­tos à al­tu­ra dos nos­sos sen­ti­men­tos mais pre­cio­sos para que a so­cie­da­de se con­ten­te com tão pouco e es­que­ça, mais uma vez, sua es­sên­cia: o amor ver­da­dei­ro.
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