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30/09/2009Nosso Hino - Arthur Carvalho
30/09/2009
Publicado no Jornal do Commercio - 30.09.2009
Uma vez, perguntei ao escritor Tomás Seixas o que ele achava da letra do Hino Nacional. Pego de surpresa, não respondeu nada, quedou-se mudo e coçou a cabeça, numa reação característica de quem fica embaraçado.
À primeira vista, pode parecer estranho que um homem tão culto quanto Tomás tenha tido dificuldade em responder a uma indagação aparentemente simples, mas aí é onde está o problema. A pergunta pode parecer boba ao cidadão comum, que opinaria sobre o assunto sem uma análise mais profunda. Tomás era, ao mesmo tempo, e paradoxalmente, ao seu modo peculiaríssimo, um social-democrata com ressaibos de monarquismo, um conservador nos hábitos pessoais e na leitura compulsiva de autores românticos como Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Goethe, vanguardista na profunda admiração por Rimbaud, Katherine Mansfield, Clarisse Lispector, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Dalton Trevisan e Rubem Braga, entre outros.
Além de tudo e em especial, Tomás Seixas era refinado esteta. E qual seria a opinião de um esteta, amante incondicional do estilo flaubertiano, versado nos clássicos greco-romanos, franceses, italianos, ingleses, russos, espanhóis e portugueses, apreciador do regionalismo coloquial da poesia de Ascenço Ferreira e, sobretudo, da cristalina musicalidade dos poemas de Joaquim Cardoso? Qual seria a sua opinião, repita-se, sobre a letra empolada, ufanista, pesada e gongórica de Osório Duque Estrada?
Tomás, depois de muito pensar, resmungou: "É melhor deixá-la assim, como está."
Pois é.
Confesso minha simpatia pelo parnasianismo de certas letras da nossa música popular. Digo mais: algumas composições de Orestes Barbosa, Cândido das Neves, Jorge Faraj, Otávio de Souza (Rosa), Freire Júnior, Catulo da Paixão Cearense e Erotides Campos são lindas. Vejam esse crespúculo de Erotides, em Ave Maria, gravação de Augusto Calheiros: "Cai a tarde/ Tristonha e serena, / Em macio e suave langor,/ Despertando no meu coração/ A saudade do primeiro amor .../ Um gemido se esvai lá no espaço,/ Nessa hora de lenta agonia,/ Quando o sino saudoso murmura/ Badaladas da Ave Maria!" Sentir lenta agonia no entardecer...
Deixemos Vanusa em paz. Nunca vi jogador ou técnico de seleção brasileira cantar nosso Hino certo, do começo ao fim. Segundo Lamartine Babo, em Serra da Boa Esperança, Jesus não castiga o poeta que erra.
P.S. – Não percam Jomard Muniz de Britto e Marcius Cortez, dia 3, às 18h, na VII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco no Centro de Convenções.
Acabo de ler dois livros excelentes: Memórias embriagadas, de Fernando Portela, Editora Noovha América, brilhante apresentação de Nivaldo Mulatinho Filho, e o Outro colibri azul, de Brivaldo Campelo, pela Livro Rápido.
Agradeço ao jurista Sílvio Neves Baptista o Manual de Direito de Família, sob sua coordenação, Edições Bagaço. Estou aprendendo muita coisa com este título.
