Nossa cana-de-açúcar - João Humberto Martorelli

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19/05/2011

Nossa cana-de-açúcar - João Humberto Martorelli

19/05/2011
Nossa cana-de-açúcar - João Humberto Martorelli
Publicado no Jornal do Commercio - 19.05.2011

A política do governo federal em relação ao etanol tem sido reativa e, por conseguinte, errática. E não é de agora. Nos idos do governo militar, com o Proálcool, iniciou-se a descoberta do combustível da cana e proliferaram as indústrias financiadas pelo BNDES. Era a época do choque da escassez e da elevação do preço dos barris de petróleo em decorrência das guerras do Oriente Médio. A indústria automotiva nacional engajou-se no esforço de criação do mercado de carros a álcool e, apesar dos problemas iniciais, prosperou. Não demorou, a redução do preço do petróleo aliada ao primeiro movimento de elevação do preço do açúcar no mercado mundial, o que motivava o produtor brasileiro a virar a produção das usinas para o açúcar, empurrou o governo a tabelamentos, controles e repressões contra o produtor. O resultado todos conhecem: as medidas não deram resultados práticos, pois a força do mercado manteve o desabastecimento de álcool, de modo que as usinas financiadas pelo BNDES iniciaram processo de insolvência e a indústria automotiva regrediu no desenvolvimento do carro a álcool. A nova força do etanol, a partir do apelo do meio ambiente por combustíveis renováveis e o crescimento do mercado mundial, notadamente o dos EUA, deu lugar ao redescobrimento da cana-de-açúcar e de seus derivados para a matriz energética, com o aperfeiçoamento do carro flex. Bastou, porém, outra vez, o primeiro soluço forte do mercado internacional de açúcar para que as usinas, não sem razão, voltassem a produção para esse mercado. A reação do governo é a mesma, sob nova roupagem: diminui a adição do álcool à gasolina (ponto contra o meio ambiente) e retoma a regulação, proclamando que o etanol deixa de ser commodity e passa para o âmbito da ANP. Ora, o grande esforço do etanol hoje é tornar-se commodity, a exemplo do concorrente petróleo. A participação em bolsas internacionais de comércio, a possibilidade de fixação de preços futuros, o incremento do comércio entre os países produtores e consumidores parecem constituir o único caminho para a criação de forças definidoras e estabilizadoras de preços, fator essencial para a regular produção em escala. De mais a mais, todos os dias surgem novidades abonadoras do uso da cana na matriz energética. Agora sabemos, por exemplo, que canaviais contribuem para reduzir a temperatura local, adicionando um importante efeito à matéria-prima do etanol, a saber, o combate aos efeitos do aquecimento global pelo simples fato de ser plantada a cana. Não podemos, pois, criar situações institucionais, a pretextos meramente políticos, que importem em comprometer o crescimento da produção agrícola e industrial no setor sucroalcooleiro. No momento em que o mercado internacional olha para o etanol e a cana adquire robustez como alternativa contra o aquecimento global, o governo se repete. Esta semana os produtores mundiais se reúnem em Nova Iorque para o tradicional Sugar Dinner. Aposto que o doce açúcar vai ceder lugar ao etanol como prato principal do menu e as orelhas de Dilma (e, claro, as conhecidas orelhas de Lobão) vão coçar a distância.

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