No silêncio da mata - Arthur Carvalho

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03/11/2010

No silêncio da mata - Arthur Carvalho

03/11/2010
No silêncio da mata - Arthur Carvalho
Publicado no Jornal do Commercio - 03.11.2010

Descendo uma pequena ladeira, por entre palmas e mandacarus, vamos encontrar seu mocambo de taipa, coberto de palha de coqueiro. É um pequeno mocambo caiado de branco, com alpendre, portas e janelas azuis. Tem dois quartos, sala de visitas, copa e cozinha. No alpendre, gaiolas penduradas com sabiá-gongá, galo-de-campina, sanhaçu, canário-da-terra e curió.

Quando seu João Nepomuceno resolveu morar ali, sozinho, não tinha nenhum pássaro, foi adquirindo alguns na feira de Gravatá, pegando outros de alçapão e arapuca, trocando mutucas com os meninos da redondeza. E logo percebeu que os passarinheiros eram uma confraria de hábitos, gostos e vocabulários próprios. Se a canária está de fogo, "corruchia" para o companheiro, incentivando-o a enfrentar o macho rival ou oferecendo-se para o acasalamento. Houve tempo em que Recife tinha várias "rinhas" de canários de briga: entre elas, as da Torre, Baixa Verde, Nova Descoberta, Beberibe. A frequência, constituída de apostadores e canaristas, era das mais heterogêneas: médicos, advogados, motoristas de táxi, cobradores de ônibus e lotações, soldados de polícia, empresários, vagabundos.

Construí um viveiro no quintal de nossa casa, na Capunga. Nele, soltava canários brancos que eu comprava aos gaioleiros Ferreirinha e Limoeiro e no Mercado da Madalena. Canários brancos ou pintados são os ainda jovens, "mudas-de-mato". Aqueles de penas sujas, criados soltos, na mata, plumagem sujeita às intempéries e poluição atmosférica. No cativeiro eles vão limpando as penas, com o tratamento especial do dono, alimentação balanceada, na base do alpiste de primeira, do painço, pepino, de vitaminas, água limpa pra beber e fresca pra tomar banho nos potes de barro.

Assim que o canário branco ficava adulto, todo amarelinho, um amarelo gema de ovo, eu o vendia aos canaristas. Um grande freguês meu, o saudoso Nando Dubeux, morava na Rua das Graças, defronte da mansão dos irmãos arquitetos Zildo, Zenildo e Zamir Sena Caldas. Lembro de "Galinheiro", um canário enorme, elegante e valente, que dei de presente a Nando e ele batizou com o nome de guerra de "Galinheiro", porque o viveiro onde ele "fez a muda", no fundo do nosso quintal, era vizinho ao galinheiro. Naquela época, as residências das Graças ainda cultivavam o saudável hábito de criar perus, patos e galinhas. Também usavam gansos para vigiar e fazer a segurança da casa, dando o alarme e espantando o ladrão com seu grasnar. "Galinheiro" ganhou os torneios que disputou, nos bairros do Recife, nas mãos de Nando Dubeux, e se aposentou invicto. Nando rejeitou todas as propostas para vendê-lo. Um executivo quis trocar seu fusca do ano por "Galinheiro"- Nando não aceitou a oferta. Mesmo porque, além de gozar de boa situação financeira, já havia se afeiçoado ao passarinho.

Me lembrei disso, quando vi os dois canários de João, estalando na sua varanda, ao entardecer. E eu, que não ia demorar, porque estavam me esperando, na Buchadinha do Gordo, fiquei pra janta de macaxeira com charque, tapioca de coco e café torrado na morada de seu João Nepomuceno, negro retinto, maquinista de trem aposentado da antiga Great Western, 82 anos bem vividos.
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