No reino do unicórnio - Dayse de Vasconcelos Mayer

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21/06/2009

No reino do unicórnio - Dayse de Vasconcelos Mayer

21/06/2009
No reino do unicórnio - Dayse de Vasconcelos Mayer
Publicado no Jornal do Commercio - 21.06.2009

dayse@hotlink.com.br

Todos já ouviram falar de um cavalo com um só chifre em espiral chamado unicórnio. Inscreve-se na mitologia oriental, grega e romana. A lenda confere ao chifre um poder extraordinário. O chifre simboliza o poder soberano e constitui instrumento de combate ou de defesa contra os grandes predadores. Nele reside não apenas a força, mas uma história global. Inclui os pensamentos, os princípios, os valores que compõem o símbolo. Além de cura de todos os males, é antídoto para os venenos existentes em alguns homens. Em horas de crise, o chifre pode apresentar um brilho intenso. Mas apenas aos bons a luminosidade se revela.

O unicórnio poderia simbolizar às constituições modernas. Notadamente na dimensão formal, semântica, programática e irreal. É o caso da brasileira de 1988. A comparação poderia começar pelo princípio da dignidade humana e pelo direito à vida. Este exercício colocaria em segundo plano as discussões no STF sobre aborto, anencéfalo, células tronco, etc. A opção recepcionaria fatos ainda mais preocupantes.

Mas será preciso que abandonemos o nosso quarto refrigerado, a nossa cama king-size e os nossos cobertores para uma caminhada pela Rua do Imperador D. Pedro II. Entre as 6 e 6h30. O automóvel ficaria estacionado entre os prédios da Secretaria da Fazenda e da OAB. Bem em frente à Igreja de São Francisco. E tudo para presenciar um espetáculo abominável: como se houvesse uma corneta a tocar, um grande exército de mendigos abandona, de forma sincronizada, as suas "casas" de papelão. A saída das células ou casulos significa a formação de uma barreira composta por grandes folhas ou cartões usados como divisórias pelos deserdados da sorte. Não é fácil descobrir, na sequência, em que lugar o material recolhido foi guardado. O fato é que, pelas 8h, já não resta nenhuma folha nem restos de caixas em exposição. Tudo leva a acreditar que existe uma espécie de cumplicidade entre pessoas e instituições voltada para o encapotamento dessa realidade.

A visão do que se passa no Centro não é uma miragem. Contrasta com os princípios consagrados em nossa lei maior. Reveste-se de uma capa terrífica, punitiva e desumana que a ética inscrita na tradição judaico-cristã rejeita de forma veemente. Revela aos olhos dos visitantes da noite e da madrugada a retórica do poder, a reprodução da onipotência dos arapuqueiros ou raposeiros do dinheiro público. Igualmente o retrato não retocado da exclusão social em sua face mais hedionda: a existência de homens alijados dos benefícios da cidadania e das garantias constitucionais. Integram o exército dos desconhecidos ou abandonados pelos instrumentos de pesquisa. Compõem uma modalidade de mortos-vivos não agraciados pelas políticas de pão e circo ou pelo arsenal simbólico posto em prática para a construção de um novo Olimpo.

No início de 1804, quando Beethoven registrava a sua derradeira nota na sinfonia em mi bemol maior, a Terceira, dedicada a Napoleão, o compositor decide riscar a dedicatória onde revelava a sua enorme admiração por Bonaparte. Era sua intenção, antes, homenagear o herói romântico, mas também o homem que se identificava com ele na origem humilde e na ascensão possibilitada apenas pela inteligência privilegiada e aptidões geniais. Mas Napoleão destruiu a sua própria imagem quando decidiu se coroar a si mesmo. Em reprovação, Beethoven risca o manuscrito deixando apenas o título Eroica, símbolo do ideal humanista e de ruptura com uma ordem já carcomida. A sinfonia foi considerada corruptora dos costumes, mas o espírito livre e imune a críticas do grande artista permanece incólume.

Está na hora de revigorar o nosso unicórnio. Que se escreva um concerto em sua homenagem. Apenas para revelar a nossa capacidade de indignação contra atos desumanos e a nossa repulsa contra a má utilização dos impostos que a classe trabalhadora paga e que equivalem a cerca de três meses anuais de um mourejar infindo.

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