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03/01/2010Naquela mesa - Dayse de Vasconcelos Mayer
03/01/2010
Publicado no Jornal do Commercio - 03.01.2010
dayse@hotlink.com.br
Os menos jovens ainda recordam a música Naquela mesa, composição de Sérgio Bittencourt. Assim começava: "Naquela mesa ele sentava sempre... Naquela mesa ele contava histórias/ que hoje na memória eu guardo e sei de cor. Naquela mesa ele juntava gente e contava contente o que fez de manhã..."
A música parece ter sido escrita para José Hermenegildo da Rocha Mello Filho. Estava diariamente no Restaurante Leite. Sempre no mesmo horário e na mesma mesa ao fundo da sala. Uma fidelidade rara aos Dias e, sobretudo, a Armênio.
A última vez que nos encontramos foi num almoço oferecido a professores portugueses no mesmo restaurante. O ritual era o de sempre: o abraço afetuoso, a conversa ligeira e o sorriso farto de Hermena - apelido carinhoso que lhe ofertou um amigo nos tempos de ouro da Comper e do Bandepe. Naquele dia ele fez questão de me conduzir até a mesa do presidente do Diário de Pernambuco Joezil Barros. Desejava, repetindo o velho ritual de sempre, dissertar sobre os meus feitos heroicos. Mas essa forma de agir não era somente privilégio meu. Estendia-se a todas as pessoas que faziam parte do seu círculo de amizades. E por uma razão muito simples: José criou um mundo de pessoas virtuosas. Tudo principiava pelos próprios familiares. Recordo um fato que pode facilitar melhor a compreensão do que afirmo. Certa vez fui visitar seu filho Nelsinho, que nasceu de apenas seis meses. Isto faz muito tempo. Por isso a memória poderá adulterar ou desfigurar o fato. O recém-nascido estava num aparelho de vidro no formato de bolha. A mãe não se afastava do rebento em momento algum. Tal comportamento deixava Hermenegildo intranquilo. Repentinamente, percebi que a criança não estava bem. Num ato meramente reflexo, abri a entrada do equipamento e iniciei, intuitivamente, uma massagem no coração do bebê. Desde então Hermenegildo converteu as minhas mãos num símbolo: mãos como instrumento do Pai ou da mão direita de Deus Pai, mãos de Verônica que enxugou o rosto de Jesus, mãos de Maria Madalena ao lavar com bálsamo os pés de Cristo, mãos que firmam e estreitam amizades, mãos responsáveis apenas pelo bem que fazem, mãos que dão cor às telas e concretizam desejos refugiados em nossa mente - fantasia e sonho que fluem das formas eternas da beleza, mãos que devem gerar riquezas apenas com o suor do rosto. Foi com as mãos que Jesus abençoou as criancinhas e é com as mãos que exprimimos até os momentos essenciais da vida, desde que abrimos os olhos para o mundo e até quando os fechamos para sempre.
Há pessoas que não precisam, à moda de Manuel Bandeira, de pedir licença a São Pedro Bonachão para o ingresso no céu. Mesmo quando a viagem aconteceu de improviso. Por isso temos certeza que Hermenegildo chegou lá em cima dando uma gostosa gargalhada e explicando que estava a repetir a história de João Gostoso do poema "Libertinagem". Uma noite ele chegou no Bar Vinte de Novembro bebeu, cantou, dançou, amou. Depois se atirou feliz na Lagoa Rodrigo de Freitas e, sem desejar, morreu afogado.
Mas o nosso protagonista é José - ou Zé, como lhe chamava Susana. E Zé não morava no morro da Babilônia e num barracão sem número. Só era igualzinho ao João na arte de viver a vida com perspectivas que mal ultrapassavam o amanhã. Possuía, ao lado dessa característica, um talento muito raro: fazer amigos. Talvez não soubesse usar a palavra "não" ou a usasse na forma de sorriso. Nesse aspecto, era um político extraordinário.
Eu poderia dizer, como remate, que naquela mesa estava sentado, diariamente, um homem bom. Certamente diria uma verdade apenas pela metade. Afinal, nada existe sem o seu contrário. José era um ser humano. Como tal, repleto de virtudes e defeitos. Mas poucos homens terão a possibilidade de escutar, como no final da canção de Bittencourt, que "naquela mesa está faltando ele/ e a saudade dele está doendo em nós".
