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24/07/2009Na verdade, caridade - Gilvandro Coelho
24/07/2009
Publicado no Diario de Pernambuco - 24.07.2009
gvcoelho.com.br
Com o objetivo declarado de comemorar 40 anos da carta Populorum Progressio, do seu antecessor Paulo VI, que, desafiou a globalização e inspirou as nações a buscarem caminhos para superar a grave crise que se abate sobre o mundo, o Papa Bento XVI escreveu a terceira encíclica do seu pontificado, que intitulou Caritas in veritate (Caridade na verdade). Ao tratar de tema social polêmico, ele chama a atenção da sociedade para as implicações decorrentes da procura de um desenvolvimento que não leve em conta a ética, desconsidere a dignidade da pessoa humana na sua totalidade e prescinda do Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, a quem as diversas religiões chamam Deus. Chama, também, os homens e mulheres de boa vontade a explorar novas vias para o desenvolvimento sustentável. Prossegue, assim, aprofundando o tema anterior em que cuidou do amor cristão: Deus Caritas est (Deus é caridade). Lendo-a, nos lembramos de outro expoente da Igreja, Agostinho de Hipona (354/430), que ensinava: "Onde não há caridade, não pode haver justiça" e "Não se imponha a verdade sem caridade, mas não se sacrifique a verdade em nome da caridade" (Felipe Aquino - http:/cançaonova.com/noticiaphp). Assim, "a caridade supera a justiça porque é amar, é dar, oferecer ao outro do que é meu. Mas ela nunca existe sem a justiça que induz dar a outro o que é dele, o que lhe pertence em razão do seu ser, do seu agir" (Bento XVI, Caritas in veritate 6).
Ao dizer que o desenvolvimento é a vocação do homem, ele afirma que o grande drama da humanidade hoje é a crise do sistema econômico e esta é fruto da busca exarcebada do lucro. Este vem sendo alimentado por uma subserviência ao mercado, que é ganancioso e voraz, ignora os pobres e os miseráveis. Assim, diz o Papa "o objetivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza". Mais uma vez Bento XVI insiste que, também para a economia, a ética é essencial e não pode ser esquecida. Assim, "A área econômica não é nem eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social. Pertence à atividade humana: e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada".
Em reflexões publicadas na Folha de S. Paulo (13/07/09), Dom Geraldo Lyrio de Souza, atual presidente da CNBB, arcebispo de Mariana e mestre em filosofia pela Universidade Santo Tomás de Aquino, em Roma, afirma que temos um grande desafio: mostrar, com o Papa, que os princípios tradicionais da ética social, como a justiça, a transparência, a honestidade e a responsabilidade "podem e devem encontrar lugar dentro da atividade econômica normal". Trata-se, portanto, de uma exigência simultânea da caridade e da ética.
Daí infere a conclusão que adotamos: esperamos que a nações coloquem a pessoa humana no centro das buscas para superar a crise que atravessamos, sobretudo os pobres, defenda a vida em todas as suas formas e elimine as desigualdades que ofendem o Criador que nos fez a sua imagem e semelhança. E tenhamos sempre presente a caridade, que supera a justiça porque induz dar ao outro o que é dele ou lhe pertence em razão do seu ser, do seu agir.
