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02/02/2011Mudando de assunto - Arthur Carvalho
02/02/2011
Publicado no Jornal do Commercio - 02.02.2011
Benito di Paula, também conhecido como Passarinho de Bigode, diz que acaba a valentia de um homem quando a mulher que ele ama vai embora. E acrescenta que tanta coisa muda nessa hora, que o mais valente dos homens chora.
Pior, que é verdade. Dizem que Maria Bonita mandava em Lampião. Chegou a poupar a vida de prisioneiros e sequestrados do Rei do Cangaço, pedindo por eles. Aníbal, o grande general cartaginês, dizia que, se lhe dessem um exército de apaixonados, ele conquistaria o mundo. Cientistas ingleses diagnosticaram há algum tempo que, quando o homem ou a mulher se apaixonam, ficam doentes. Ou seja, a paixão é uma forma de doença. Mas, às vezes, a paixão é uma sensação gostosa. Nas noites de solidão, Manuel Bandeira costumava telefonar para os íntimos, perguntando se o amigo tinha uma dorzinha de cotovelo para lhe vender.
Conheci um boêmio, casado e pai de família, cuja amante era dona de pensão. Conversando com ela, um dia, a pobre desabafou, dizendo que não aguentava mais tanta exploração. Que, além de beber e comer de graça na sua casa, ele levava os amigos para fazer farra em sua boate, sem pagar. Danado eram as feijoadas dos domingos, que começavam onze horas e varavam a noite, entrando pela madrugada das segundas-feiras, tudo safo.
Indaguei por que não se separava dele. "Porque não consigo. Já fui até aos mais famosos candomblés da Bahia. Gastei fortunas com pais de santo de lá e daqui, e nada. Esse homem me enfeitiçou, estou cega. Não quero vê-lo. Se aparece, me rendo. Nem sabe que pretendo deixá-lo. Ele é o homem da minha vida. Uma maldição, um castigo. É casado, mas, e daí?" Isso dito por uma dona da noite, coroa de muitos quilômetros rodados.
Lupicínio Rodrigues, o rei da dor de cotovelo, andou próximo de definir a desilusão de uma paixão traída ou não correspondida: "Eu não sei se o que trago no peito é ciúme, despeito, amizade ou horror. Eu só sinto é que quando a vejo me dá um desejo de morte ou de dor."
Eu estava conversando fiado com uma promotora de Justiça e uma juíza da vara de família do Recife, quando me veio à mente esse tal verso de Benito di Paula - acaba a valentia de um homem quando a mulher que ele ama vai embora. E chutei que nem Shakespeare fez verso tão pungente e original. Tanto bastou para a promotora, Luciana, filha de meu saudoso colega de turma do Nóbrega, Olympio Costa Júnior, pular da cadeira: "Não diga isso. Não diminua meu Shakespearezinho." E exibiu, vaidosa, um livro do inglês, que está lendo, sobre sua mesa de trabalho. Mas Andrea, filha de meu amigo Aluiz Tenório, de brincadeira ou não, me deu razão: "Também acho."
E agora?
Agora é que, um dia, perguntei ao poeta Thomas Seixas, versado nos clássicos greco-romanos e da literatura inglesa, francesa, russa, italiana, espanhola, portuguesa e brasileira, o que entendia por dor de amor, tendo ele respondido: "Me pergunte tudo, menos isso. Esse capítulo é o mais misterioso e indevassável da alma humana, onde até rei volta a palavra atrás. Eu mesmo - murmurou ele em sofrida confissão - somente amei na vida uma vez." E mudou imediatamente de assunto, os olhos marejados, indo colher acácias amarelas e rosas brancas do seu jardim das Graças.
