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23/11/2010Monteiro Lobato e Tia Anastácia - Nilzardo Carneiro Leão
23/11/2010
Publicado na Folha de Pernambuco - 23.11.2010
Decididamente, é de se reconhecer o exagero e visão distorcidas do tempo, dos fatos e da análise do comportamento humano e nas suas interpretações.
Não faz muito, como advogado e como integrante da Diretoria da Fundação Gilberto Freyre, tivemos que fazer longa defesa escrita, juntar documentos, anexar textos de outros autores, participar de audiência pública no MP, argumentando contra radicalismos e visões distorcidas do universo da cultura.
Razão de tudo: uma representação feita a órgãos do Min.Educação e ao MP., não apenas para impedir a distribuição em escolas públicas estaduais de PE, de uma cartilha sobre “Casa Grande & Senzala”, obra principal de Gilberto Freyre. Diziam ser ela ofensivas à raça negra e distorcer a verdade.
No livro referido, dividido em três partes, o nosso escritor maior analisou com a visão de um cientista social, de um sociólogo-antropólogo, de um historiador, a formação da cultura brasileira através do branco, do índio e do negro. Quiseram ir mais além: que fosse retirado das prateleiras das livrarias e serem recolhidas as edições do próprio livro, sem dúvida o maior estudo e análise feitos à época (1933) sobre a cultura e civilização brasileiras.
Agora, vem causando não apenas reação entre intelectuais e escritores brasileiros, mas da imprensa, de professores, de estudantes, de todos que já foram crianças e se deliciaram inocentemente com a estória: querem retirar do mais conhecido dos autores brasileiro e do mais brasileiro de todos os autores de literatura infantil e mesmo juvenil, o mais lido e conhecido dos livros de Monteiro Lobato: “As Caçadas de Pedrinho”, pelas referências que se diz distorcidamente feitas à gorda e quituteira cozinheira do Sítio do Pica-pau Amarelo” Tia Anastácia, por ser negra e assim tratada em uma época, na linguagem própria da boneca Emília, quea formavam com D, Benta, Narizinho e Pedrinho seus netos, e mais o Visconde de Sabugosa e o Marquês de Rabicó, aquele universo sadio de vida.
Escritores dedicados à literatura infanto-juvenil lançaram um protesto e um veto contra o Conselho Nacional de Educação em relação ao livro, sob o título “Lobato e Censura”, destacando que as criações de Lobato
“têm formado ao longo dos anos, gerações e gerações... A maravilhosa obra de Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós, brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagradáveis, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança no seu futuro.”
A Academia Brasileira de Letras (ABL) também se posicionou contrariamente à censura do livro, protestando contra o veto à criação artística:
“Um bom leitor sabe que Tia Anastácia encarna a divindade criadora dentro do Sítio do Pica-pau Amarelo. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a sua cor e essa era a realidade dos afrodescendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica.”
E Lya Luft no seu “Crucificar Monteiro Lobato” (10.XI.010. Veja), após pedir pelo amor de Deus, da educação e das crianças, e da alma brasileira, não comecem a mexer com nossos autores sob a desculpa maléfica de menções a racismo.Essa semente terá frutos podres, a devorar nossa cultura, a nossa maneira de convivência de etnias. Indo mais além:
“Não comecem a dar ouvidos a essas buscas mesquinhas por culpados a ser jogados na fogueira: livros queimados foram um dos índices sinistros - ao qual nem todos deram a devida importância - da loucura nazista....Deu no que deu e manchará pelos tempos sem fim.”
Que tudo isso seja meditado, impedido, sepultado. Para que não tenhamos todos de chorar e nos arrepender, depois, pelo silêncio nos momentos dos protestos.
