Medo de avião (de novo!) - Alexandre Gois de Victor

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25/05/2009

Medo de avião (de novo!) - Alexandre Gois de Victor

25/05/2009
Medo de avião (de novo!) - Alexandre Gois de Victor
Publicado no Diario de Pernambuco - 25.05.2009

agois@siqueiracastro.com.br

Não, dona Maria! Desista da idéia de me crucificar e dizer que sou vítima da esterilidade criativa aguda que ataca os sujeitos metidos a cronistas bissextos. É que ainda tenho algumas coisas para falar a respeito deste sentimento que nasceu agarrado ao meu DNA. Tenha dó de mim! Um marmanjo de 35 anos que literalmente treme nas bases quando vai enfrentar um vôo. Que teima em não aceitar as estatísticas. Sou assim por que o tal do medo habita num confortável duplex em meu hipotálamo, lá na nobre região periventricular. Não tenho controle sobre isso, dona Maria! E mesmo que quisesse os funcionários das companhias aéreas não me deixariam ter. Na minha última viagem (leia-se na mais recente senão dá azar...) lá fui eu para o check-in quando a atendente pediu-me que lhe desse nome e telefone de algum familiar. Quando lhe perguntei o motivo respondeu-me com um sorriso cínico que seria para avisar em caso de algum contratempo. O único contratempo queme veio à mente foi uma queda vertical em alta velocidade e, depois, o meu nome lido no Jornal Nacional. No salão de embarque ainda com a imagem na cabeça da recepcionista falando em contratempos, tiveram inicio em mim as sensações habituais do pré-vôo. Nada de mais. Apenas sudorese, mãos tremulas e frias, vertigens, sensação de desmaio, desconforto cardiovascular, falta de ar, calafrio, sensação de formigamento, boca seca, sensação de dormência, desconforto abdominal, tensões e espasmos musculares, náuseas e uma leve sensação de terror. Coisa pouca que qualquer um agüenta. Na última (odeio essa palavra) chamada para o embarque fiz aquela indagação a mim mesmo: - Você vai entrar? Antes da resposta entrego o cartão à mesma funcionária que tão bem me recebeu no check-in (tinha que ser ela?). Entro naquele cilindro hermético, acomodo-me no corredor e o comandante nos lança a nossa sentença: "Tripulação, portas em automático". Nessa hora penso: - Agora Inês é morta... O meu cérebro se mete na história e me diz: -Se fosse Inês ainda ia, amigo, o problema é se for você. Em seguida a aeromoça abre a boca e diz: "Em caso de despressurização, máscaras cairão automaticamente. Puxe uma delas, coloque-a sobre o nariz e a boca ajustando o elástico em volta da cabeça e respire normalmente". É uma doida essa mulher. Eu quero saber qual é o cristão nesse mundo que vai respirar normalmente em caso de despressurização daquela joça. Eu, por exemplo, não respiro normalmente nem quando entro no avião. Eu tenho certeza que a primeira a chorar feito uma louca seria a aeromoça. Não bastasse tudo isso ela ainda tem a cara de pau de dizer: "Lembramos que o assento de sua poltrona é flutuante". Eu não quero me lembrar disso, por que eu não quero considerar a hipótese de pouso forçado na água, sabe? Adiante, após o trauma da decolagem, levanto-me da poltrona para cumprir a minha liturgia comportamental de portador de transtorno obsessivo-compulsivo (ir ao banheiro, lavar o rosto e a nuca, fazer promessas de ser uma pessoa melhor etc). Implementadas minhas tarefas obrigatórias saio do banheiro e leio num compartimento de bagagem: Kit de sobrevivência na selva. Antes de dar tempo de pensar na hipótese o piloto manda mais uma: "Senhores passageiros..." Aí vem o silêncio. O desgraçado demora para completar a frase. Naquele segundo eu penso que ele está sem coragem de dizer o que tem a dizer. Agora o cancão vai piar... Mais então o facínora completa: "Peço a todos que mantenham os seus cintos afivelados, pois estamos passando por uma área de instabilidade". Dos males o menor. Mais ainda há a peste da turbulência. E desta vez não tem nem Alceu Valença para me tapiar. Valença, cadê você!!!???

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