Marcos Vilaça: um discurso acadêmico - Nilzardo Carneiro Leão

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06/10/2009

Marcos Vilaça: um discurso acadêmico - Nilzardo Carneiro Leão

06/10/2009
Marcos Vilaça: um discurso acadêmico - Nilzardo Carneiro Leão

Publicado na Folha de Pernambuco - 06.10.2009

Noite memorável marcou o ingresso da escritora e pintora Marli Mota na centenária e austera Academia Pernambucana de Letras como sua nova imortal.

A presidência do médico Valdênio Porto, o significativo e intimista discurso da nova imortal, homenageando sua antecessora na cadeira, Maria do Carmo Barretto Campelo de Melo, trazendo o nunca esquecido  Mauro Mota para caminhar e conversar como costumava ele fazer  com sua poesia e seu humor, fez renascer em cada um dos presentes um tempo passado e sempre presente.

Recebendo em nome da APL sua nova integrante, o discurso verdadeiramente acadêmico de Marcos Vilaça, dela integrante, que como seu Presidente deu à Casa de Carneiro Vilela não apenas a dignidade física como também a projeção cultural indispensável e dignificante para Pernambuco.

Nas suas palavras de imortal, ele, que também foi professor da não menos centenária e nobre Faculdade de Direito do Recife da UFPE, deu a medida certa do real sentido do pertencer a uma Academia de Letras.

A dignidade cultural de uma Academia, qualquer Academia, de Letras, de Artes, de Direito, de Medicina, para seu integrante, não está apenas no a ela pertencer mas a forma como honra, dignifica e exibe esse merecimento.

Marcos Vilaça brindou os presentes com verdadeira amostragem do que significa ser membro de uma Academia de Letras, ele, duas vezes acadêmico, da Pernambucana e da Brasileira, ao discorrer inclusive sobre a Cultura, assim expressando:

“...Cultura não é algo sucessivo, mas simultâneo. A Cultura carece ser entendida em sua forma alargada, algo que começa antes e termina depois. Explico-me:antes e depois de datas, de arautos, de fronteiras, de momentos. A Cultura pode ser múltipla, mas sempre será, como mais de uma, obra de simultânea continuação.”

E foi mais além o verdadeiro acadêmico:

“Cultura é uma realidade dinâmica que envolve movimento, tradição, criação.

Cultura é compreender, conviver com o outro, respeitar diversidades. Diversidade cultural é fator de coesão, não é como alguns pensam, caminhos da fragmentação.

Cultura há de ser a unidade de movimentos, o que é bem diferente de ser mera unidade.”

Com essa visão do mundo trazido pela compreensão do universo cultural, Marcos Vilaça trouxe a exata dimensão de uma Academia, que não pode ser entendida nem vivida por seus integrantes como algo estagnado e parado, onde os que são imortais ficam apenas a esperar o momento da grande homenagem.

Academia, qualquer que seja ela, representa um ser vivo e buliçoso, com unidade nas diversidades, como foi academicamente dito, tendo seu interior com projeção externa, pois voltada para a “eternidade novidade do mundo”. Existindo sempre com o novo e o renovado, disse o orador:

“Uma Academia também está obrigada a refletir linguagem e técnica do contrário ficará como uma sombra, pois perdeu a luz.”.

Exaltando a nova acadêmica com “sua cabeça lúcida e seu coração amoroso a serviço da Academia Pernambucana de Letras”, faz a sugestão:

“Espero que entenda a Academia como instituição a entretecer o velho e o novo, abandonando o héctico para luzir o vivo e o permanente, a escolher a inovação própria, a valorizar a sabedoria e sem violentações, profeticamente ao olhar o presente  e sentir o futuro, no se desvencilhar de perplexidades acadêmicas. Desse embate é que se obtém o resultado precioso, íntimo à personalidade acadêmica, ou seja, uma nucleação de verdade que continuamente faz renascer a sua tônica que impõe a vida ao compromisso, a ciência ao carreirismo, a verdade à convenção.”

Marcos Vilaça em seu discurso de recepção, deu a verdadeira dimensão do que é ser acadêmico e imortal, preocupado com a Cultura e com o significado de uma Academia de Letras.

 
 

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