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31/08/2009Marcos Freire, o senador do Nordeste - João Bosco Tenório Galvão
31/08/2009
Publicado no Diario de Pernambuco - 31.08.2009
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Por mera coincidência fui, há dois anos, à Festa da Pitomba, que comemora também a Padroeira Nossa Senhora dos Prazeres. Lá encontrei uma ainda jovem senhora portando uma camisa com a imagem de Marcos Freire com a legenda O senador do Nordeste. A camisa, bem conservada, tinha sido dada a então adolescente pelo próprio na festa de 1974. Desde então, Marcos Freire, por seu retrato na camisa, não perde mais a Festa da Virgem Santa e das profanas pitombas. Nesta eleição de 1974, Marcos Freire se converteu no fenômeno do Nordeste, sendo sua eleição para o Senado a glória dos que lutavam contra a ditadura em Pernambuco, mesmo os que, como eu, não tinham direitos políticos. Vivíamos no meio de um grande e mundial ciclo histórico de mudanças que, perdoem a minha santa ignorância, comparo ao período do Renascimento. Tudo, para mim, teve início nos anos 60. A humanidade vibrava com os sopros de liberdade que já se faziam ouvir no leste europeu e no resto do mundo.A liberdade mundial, então freada pela guerra fria, mostrava-se tal qual água represada que romperia seus diques autoritários. Um grande ciclo foi iniciado nos anos 60. Os costumes foram renovados, as mulheres quebravam seus limites com a revolução sexual advinda da pílula, também conveniente aos homens. As guerras então travadas passaram a ter como adversários os soldados que nelas combatiam.
Os soldados norte-americanos no Vietnam, os da França na Argélia e posteriormente os da Rússia na Hungria, na hoje República Theca e depois no Afeganistão foram os que se opuseram às suas guerras. Nas artes houve grandes mudanças. O romantismo e protesto se mesclaram em todas as artes, aqui e alhures. Até hoje a juventude se diverte com nossa música dos chamados anos sessenta. Mas por que a lembrança do senador Marcos Freire? É simples, sua vitória representou um marco no crescimento político daqueles que queriam e podiam se opor ao regime militar. Era um novo ciclo político onde se faria necessário quebrar tabus e promover alianças. Marcos representava todo um processo de novos tempos, pois patrocinava mudanças em todos os níveis sócio-econômicos, políticos e culturais. Sua candidatura mobilizou, pela primeira vez, a elite cultural brasileira que já se opunha à ditadura. A partir de 1974 os oposicionistas buscaram e conseguiram selar alianças, inclusive com forças militares.
Em Pernambuco, Marcos representava este novo ciclo. Se alguns entendiam que o movimento de 64 foi briga de militares com comunistas, passaram a entender o ano de 1968 como tempo de briga da liberdade contra o arbítrio e, finalmente, tivemos 1979 com a paz possível, pelas alianças e pela anistia. A quase totalidade dos nordestinos tinha orgulho do senador do Partido MDB, que carregava o adjetivo autêntico e era composto por quase todas as correntes de esquerda, constituindo-se, o MDB, numa verdadeira Frente Política. Depois o MDB teve um P na frente, virou PMDB, tendo a direita oportunista, servil a governos de todos os tipos, tomado conta de seu controle no âmbito nacional, com algumas exceções como a de Pernambuco. Com a democratização forças das esquerdas assumiram suas caras e formaram diversos partidos e facções. Algumas perderam os seus sonhos e ideais, vivendo no fisiologismo exacerbado que nada mais é do que a simples corrupção, tão combatida pelos que viveram os anos dourados.
