Ler e entender - João Bosco Tenório Galvão

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08/06/2009

Ler e entender - João Bosco Tenório Galvão

08/06/2009
Ler e entender - João Bosco Tenório Galvão
Publicado no Diario de Pernambuco - 08.06.2009
 
jbtg@uol.com.br

Pernambuco, como o Brasil, passa por mudanças que a classe dirigente não consegue compreender, ou seja, as mudanças são maiores do que a percepção dominante. Em 2008 a taxa de analfabetismo em nossa Província era de 18,5%, (pessoas com mais de 15 anos). Tais taxas, com isenção política, devem ser creditadas aos vários tipos de elites governantes, tais como políticos, industriais, comerciantes, banqueiros, professores, eclesiásticos, civis e militares. No mesmo período o analfabetismo funcional de quem lê, mas não entende, chegou a 30,5% da juventude pernambucana. É de se dar parabéns aos "trabalhadores da educação". Um terço da prole familiar pernambucana é analfabeta nos padrões latino-americanos, diagnóstico esse com amplos efeitos na vida familiar, pois onde existe despreparo educacional falta pão e sobra confusão. Os percentuais acima refletem a sociedade como um todo. Se examinarmos os dados do IBGE em relação à população de mais de 15 anos da raçanegra, o percentual de analfabetismo chega a 26,8%, os classificados como pardos a 20,3% e os brancos 14,4%.

A proporção de meninos de 10 anos ou mais que cuidam de afazeres domésticos chega a 38,1% e o das meninas 88,5%. É trabalho invisível, muitas vezes escravo, e impeditivo do avanço cultural. Os índices de desemprego em nosso estado ainda são altíssimos, embora se veja uma luz no fim do túnel, com os estaleiros, a refinaria, a Hemobrás, e todos seus complementos industriais. Ao lado disso não vislumbramos um grande aporte no sistema educacional e técnico, que fomente o desenvolvimento de nossa juventude, hoje a grande autora e vítima da violência que campeia nas ruas. No Estado e no Recife faltam locais de ensino onde se possa aprender a compreender. Faltam treinamento técnico, áreas coletivas de laser e esportes (mens sana in corpore sano), tudo isso necessário ao nosso desenvolvimento. Sem saúde, educação, esportes (lembram quando as secretarias competentes eram chamadas de educação e esportes?), nãoexistirão empregos nem empregados. Exemplificando: das camadas sociais onde imperam a precariedade do ensino, a ausência de laser e atividades esportivas, onde o desemprego é campeão, proveem a maior parte da população dos nossos presídios. São jovens incultos e socialmente cegos, pois não enxergam qualquer futuro em suas vidas. É lógico que essas nossas mazelas sociais não são os únicos motivos da delinquência reinante, porém com certeza se constituem motivos de relevo determinante.

O Estado, e isso não é crítica a atual gestão, está perdendo a peleja contra a insegurança, contra a ineficiência e contra o desperdício. Se nos compararmos com outros estados latino-americanos, sob a ótica do uso de recursos financeiros, veremos que estamos gastando mais em infraestrutura social e obtendo menos frutos. Em nosso continente levamos surras homéricas no plano social da Argentina, Chile, Peru, Uruguai e até do vizinho Paraguai. Somos campeões, com certeza, no desperdício. Todo mundo estuda para concurso de funcionário público atrás da estabilidade que, no devido tempo, fugirá de todos. Quem viver verá.

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