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22/12/2010Leitura dos sonhos - José Carlos L. Poroca
22/12/2010
Publicado no Diario de Pernambuco - 22.12.2010
jcporoca@uol.com.br
´Ele é um verdadeiro homem de lugar nenhum, sentado em sua terra de parte alguma, fazendo todos os seus planos sobre nada, para ninguém`. As palavras não são minhas, pertencem àquele moço de Liverpool, assassinado há 30 anos (8/12/1980). Outra tradução mais flexível do texto original se refere, na verdade, a um ´joão ninguém` e o autor chegou a admitir que ele era o próprio, o mesmo que afirmara anteriormente que ´o sonho acabou`.
Se o moço que assassinou o moço de Liverpool tivesse lido Crime e Castigo, teria pensado duas vezes antes de cometer o crime. Desconhecedor da obra, não podia saber o que pensava o personagem, o peso da consciência pós-delito e, principalmente, o final da história. O extraordinário livro oferece espaço com rica indagação do homem diante do seu destino e permite abertura para questionamentos de que os fatos independem do: (a) curso natural da história, (b) dos movimentos de rotação e translação e/ou (c) da vontade do indivíduo. O personagem tenta mostrar um vínculo entre o ato e o fato, mais na frente frustrado pelo insucesso da sua teoria e por tudo que passa a girar em torno dela.
Há outros fatores, usados com regularidade em casos delituosos, como o ´estava fora de si` ou ´uma voz comandou os meus atos`. O certo é que, com ou sem comando, nenhum ato isolado interfere na ordem natural das coisas. Talvez seja mais provável ter como referência a casualidade, o de se estar no lugar e na hora certos, como o do sujeito que foi 'obrigado' a adquirir o bilhete da loteria e o número foi o premiado. Detalhe: comprou fiado.
Sonhar, pelo contrário, não doi e pode haver mais precisão, embora digam o contrário. Se não transmitem recados, servem de orientação para um rumo a seguir, ainda que equivocado, o que vai de encontro à tese de alguns de que não há relação sonho x realidade. E contraria ocorrências, algumas verdadeiras, como a do sujeito que, sem dinheiro para o jogo do bicho, entregou o palpite dos números para o patrão. Deu, na cabeça. Como era um vigia noturno e sonhou à noite, ficou sem o emprego e sem a gorjeta do prêmio que o patrão embolsou.
A minha ´tese` está tomando corpo e forma. Um cientista da Califórnia (EUA) comprovou que é possível ler os sonhos das pessoas. Sem uma justificativa clara para entender a razão por que os humanos sonham, o Sr. Cerf , o cientista, jura que, mapeando alguns pontos, será possível ler as mentes dos humanos, observando os seus neurônios. Eu, por exemplo, daria uma barra de chocolate para ler os sonhos dessa tchurma que vai assumir o poder em janeiro de 2011. Seria mais ou menos como ganhar duas vezes na megasena acumulada. Como (ainda) não posso, fico cantarolando aquela musicazinha: ´Como será o amanhã? Responda quem puder`.
