La douce et belle Helena - Frederico Valença

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18/03/2011

La douce et belle Helena - Frederico Valença

18/03/2011
La douce et belle Helena - Frederico Valença

Publicado no Diario de Pernambuco - 18.03.2011

fred-valenca@hotmail.com 

Sempre gostei do inverno. Alguém poderia imaginar sentimentos tristes, angústias. Enfim, o vazio que o ocaso nos proporciona. Acabei de retornar da Europa. Férias merecidas e que precisavam ser aproveitadas. Não foi a primeira vez.

Desta feita, vim para cuidar da minha alma, fazer meu retiro espiritual e, quem sabe, descobrir ´certas coisas tão normais...` Tratar algumas feridas que insistem em não cicatrizar.

É natural, então, a ansiedade do momento, pois viajei tal qual Júlio, que ama o inverno sombrio e soturno e que deu tudo para agasalhar Júlia. Acontece que Júlia - Júlio assim o pressentia - sabia que Agosto viria e Júlio partiu morrendo de amor. Permita-me Alceu, meu primo querido: assim como você libertou Quixote de Cervantes, faço-me Júlio. Quanto à Júlia, acredito que tenha sido levada pelos ventos do cipreste a um certo agosto. Não tenho o direito de mudar a natureza da sua vontade ou a vontade da sua natureza. Se não sou mais amado, pelo menos saberei suportar a minha dor. Mas agosto, estrangeiro e desumano, não fará com que eu me atire ao mar. Que ele não dê desgosto ( exatamente para honrar o próprio nome) à Júlia. 

La douce et belle Helena, filha de um casal amigo, joga o seu Lego, eu a observo, filmando em flasback dentro de mim, a infância que - graças a Deus - ainda brinca comigo. Pelos olhinhos travessos e ingênuos de Helena, faço de conta que o mundo não é ruim, que eu nunca ( ou nunca mais ?) vou ´sofrer, de repente, uma desilusão`; faço de conta, enfim, que a vida não é o ´meu bicho-papão`.

Meu desejo é o de que esse aroma que vem da pêra flambada que sua mãe está a cozinhar, saia pela janela, anuncie a primavera e derreta a sua calda de caramelo na boca e no coração de todo o mundo. De todo mundo. Peço a Deus para não mais sonhar só.

Até breve. Que a próxima viagem, ou melhor, o próximo inverno chegue o quanto antes. Até lá, permaneço primavera, verão e outono, quando cairão as folhas de todo o mal; dos erros e equívocos que todos nós cometemos; da ingratidão; insensibilidade; desamor; abandono... Meu Deus, tem piedade dos que não sabem outonar e depois, recolher-se no inverno, renovar-se na primavera e receber os raios de luz do sol do verão.  

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