Isso não se faz - Arthur Carvalho

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03/02/2010

Isso não se faz - Arthur Carvalho

03/02/2010
Isso não se faz - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 03.02.2010

Da varanda do nosso apartamento, vejo a garça branca voando sobre o Capibaribe. Ela veio de Parnamirim em direção ao Derby e passa rente ao tapete verde das baronesas que flutuam ao sabor da correnteza, adubadas pelos esgotos despejados pelos edifícios localizados às suas margens. Baronesa é sinal de chuva nas cabeceiras do rio.

Agora ela trepa num tronco de bananeira, debaixo da Ponte da Capunga, cujo nome oficial é Ponte Professor Morais Rêgo, reformada após a grande cheia de 1975, que atingiu o Recife, principalmente Várzea, Caxangá e Afogados.

Lembro-me bem dessa cheia porque eu estava na Secretaria da Segurança Pública, na Rua da Aurora, e quando fui embarcar no nosso Corcel amarelo, o aguaceiro desabava sobre ele com pingos tão grossos e fortes que pareciam de granizo. Percebendo que o fenômeno era inusitado, na cidade, portanto de difícil prognóstico quanto às consequências, me piquei para Olinda, sem enxergar bem o trânsito em frente, pela força da água batendo no para-brisa, o limpador não dando conta do recado. A Marim dos Caetés também foi duramente atingida, e, no dia seguinte, com as ruas alagadas, não consegui chegar ao Cotonifício da Torre, onde trabalhava, para cumprir o expediente matinal. O marechal Castelo Branco, então presidente da República, que achava exagero a decretação de estado de calamidade para Pernambuco, pelo governo Moura Cavalcanti, ficou perplexo quando sobrevoou Recife de avião.

A garça não demonstrava preocupação alguma com as baronesas que navegavam no rio. Pelo contrário: mergulhou e voltou à tona com um pequeno peixe vermelho no bico longo e preto. Depois, bateu asas e voou em direção às Graças. Escalou no Hospital Jayme da Fonte, foi agraciada com uma sardinha por Antônio da Fonte, pousou no campanário da Igreja de São José dos Manguinhos, escorraçou um casal de canários-da-terra abarrancado ali há muito tempo, comeu os ovos do ninho da canária, aterrissou na casa do pintor João Câmara, esquina da Rua das Pernambucanas com a Jacobina, afundou na piscina de João, pensando que era lagoa, emergiu, furtou um cachorro-quente da padaria do alvirrubro Diniz, admirador de Ivan Brondi, nos Quatro Cantos, desapareceu no azul do céu.

Acordei com o telefonema amigo de Alexandrino Rocha, dizendo-se saudoso da época de ouro do Cinema São Luiz, lamentando não ter tido condições de frequentar assiduamente suas matinês, envolvido no trabalho de jornal. Quer morar na Av. Beira-Rio. Quando lhe comuniquei que da Beira-Rio só saio pro jazigo da AIP, em Santo Amaro, deu aquela gargalhada gostosa que lhe é peculiar.

Em seguida, e-mail de Joezil Barros, dizendo que "em vez do quem-me-quer dos ricos", frequentava o "quem-me-quer dos pobres, do lado da Rua do Sol", em vez do Gemba, sua sorveteria preferida era aquela situada na Matias de Albuquerque. Dou o maior ponto a quem vence na vida sem esconder a origem simples.

Por fim, e-mail de Liliana Falangola expressando a enorme satisfação de participar da reinauguração do São Luiz. E sugere que só falta algum descendente de Emiko e Heiji Gemba reabrir o Gemba "para que a gente pudesse, como outrora, saborear depois da sessão do domingo, os deliciosos sorvetes com os biscoitos BIG (Bi, de biscoito, e G, de Gemba)". Infelizmente, é impossível, Liliana. José Paulinho me garantiu que o japonês morreu sem revelar a fórmula mágica do sorvete. "Nem à viúva" - lastima Maria Letícia, especialista no assunto. Isso não se faz...

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