Infância curta - João Bosco Tenório Galvão

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15/03/2010

Infância curta - João Bosco Tenório Galvão

15/03/2010
Infância curta - João Bosco Tenório Galvão

Publicado no Diario de Pernambuco - 15.03.2010

jbtg@uol.com.br

Nos idos de antigamente as crianças não tinham infância simplesmente porque tinham de trabalhar. Se nascessem ricas e nobres, a infância era longa. Evoluímos bastante. Primeiro foi o Estatuto do Homem, depois o da Mulher, agora temos um sistema legal de proteção à criança e ao adolescente. Quase que não temos o que proteger em termos de crianças e adolescentes. As crianças estão se comportando como adultos. Quem frequentar as lojas de conveniências onde vendem bebidas e cigarros, assistirá nos fins de semana grupos de jovens e crianças em seus soirés embalando-se nas músicas que emanam dos veículos, grande parte delas fumando e bebendo quando não contam sequer com 15 anos de vida. Essas são as ricas e remediadas. Quem frequentar os clubes, bares, ligas de dominó, de nossos subúrbios assistirá a mesma distorção, variando quando muito o repertório musical e a qualidade das bebidas e dos cigarros. Às crianças é vedado trabalhar, pois o MP fiscaliza até os anúncios de jornais oferecendo empregos. Mas, à elas não se estende a proteção de não se embriagarem, de fumarem, de serem promiscuas e precoces em suas vidas e preferências sexuais. Os menores de quinze anos não podem trabalhar, mas, em número generoso se prostituem pela ausência de uma infância longa e protegida.

Nós saímos, em menos de um século da não referência legal à infância, embora ela tenha sido protegida por uma sociedade não competitiva, para uma legislação codificada em defesa e proteção da criança, que se mostra ineficaz. Não adianta a existência de leis em proteção à criança, quando se encurta a infância. Criança de infância curta é, potencialmente, adulto desajustado. Em 1975, ou seja, há trinta e cinco anos, o então deputado federal Sérgio Murilo fez uma série de pronunciamentos na Câmara Federal alertando para o abandono de nossas crianças, então chamadas de crianças de rua, afirmando que elas seriam os futuros delinquentes. Tinha razão o saudoso deputado. Hoje não teria mais razão! As crianças desprovidas de infâncias estão no rol dos delinquentes contemporâneos. Não serão adultos criminosos, pois já cometem seus crimes e no futuro serão números das estatísticas criminais, quando for estudado este triste período da sociedade brasileira. O IBGE está aí! Se olharmos os dados de nosso censo criminal, veremos que a maioria de nossos detentos é menor de 25 anos! Os nossos assassinos e suas vítimas são dessa faixa etária, tem criminosos de nove anos.

A legião de delinquentes aumentará, pois nada se faz no sentido de se proteger a criança e o adolescente brasileiro. As nossas escolas que deveriam ser locais de tranquilidade, estão se convertendo em cenários de agressões físicas, tráfico de drogas e outros delitos, diante de professores que confessam serem impotentes e vítimas da violência existente. O combate à prostituição infantil, no meu modesto entender, se preocupa mais com o adulto usuário e menos com as condições que leva a criança a se prostituir. O dilema é como se pode alongar a infância? Falta dinheiro, enquanto existem centenas de autoridades sob suspeita no trato das verbas públicas num vil desperdício. Porém, não percamos as esperanças, pois na história republicana já temos o primeiro governador em exercício, preso por corrupção. Dias melhores virão para o Brasil, que é o país do futuro...



 

 

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