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30/06/2010Imprensa esportiva - Arthur Carvalho
30/06/2010
Publicado no Jornal do Commercio - 30.06.2010
Esta crônica poderia falar sobre a briga de Dunga com a mídia brasileira ou duas coisas igualmente desagradáveis. Aliás, três: a insuportável corneta africana, que merece profunda análise dos sociólogos e antropólogos, a incontinência verbal de Galvão Bueno e o tormento que representa a Jabulani para os goleiros. Bola fantasma que caminhou sozinha, como alma penada, ou buscapé, para dentro do arco inglês, num despretensioso chute de fora da área dos americanos. Mas vamos às coisas amenas.
Pode ser que eu esteja enganado, mas, lendo os comentários dos melhores articulistas esportivos do Brasil e da imprensa argentina e espanhola, cheguei à curiosa conclusão de que argentinos e espanhóis analisam com mais acuidade e até lirismo as partidas do selecionado brasileiro, inclusive a atuação individual dos jogadores. É um estudo mais agudo das táticas, sistemas e lances do escrete tupiniquim. A começar pela exatidão das manchetes: "Brasil, la eficacia sin encanto" (El País-Madrid): "Hoje ganha como antes, mas não nos dá alegrias. Não há samba. Entre os pentacampeões mundiais, o futebol já não é uma arte, uma festa maior, senão tão-somente um ofício. Há muito de italianização germânica neste Brasil tão de Dunga, tão feito à sua imagem e semelhança. Dunga nunca pareceu brasileiro". (Qual jornalista brasileiro já disse isso?). Continua El País: "Como futebolista, ele era capataz de Romário e Bebeto em 1994, como técnico, 16 anos depois, ele é sargento de Luís Fabiano e Robinho, porque o roteiro de Kaká, horrível no início e absolvido no final, não é claro. O Brasil jogou duas partidas: venceu no campo, mas perdeu na opinião pública, razão pela qual os nostálgicos não perdoam a mutação". Agora vejam que bonita constatação: "O Brasil ganhou os corações ao entreter o futebol, que agora só oferece resultados. Não é mais a mãe da invenção, é uma equipe construída para bater. Então, o Brasil pode ser devastador. Uma seleção firme e contundente. Tão candidata ao título como quando era um encanto."
El Clarín (Buenos Ayres): "Quando tiene ganas, Brasil arranca y mata: outra prova da superioridade da equipe de Dunga. Dominou os africanos, tomou o controle da bola, e, quando acertou os passes, liquidou. Dois gols que foram golaços. Desses que os antigos cronistas definiam como "gols de outro partido". Por paradoxal que pareça, o contexto em que joga o Brasil é este: dorme, distrai, é paciente e, de pronto, acelera e define. E liquida e marca três gols que poderiam ser mais, com o mesmo argumento: domina a bola, faz lateral, e zás - saca o revólver e levanta a arquibancada. No primeiro gol do Brasil, Kaká deu um passe para Luís Fabiano como num tubo entre três rivais. Então, o de Sevilha, como um ladrão furtivo, foi assaltando os chapéus da Costa do Marfim, braços, peito e deixou rodapé. Kaká é, às vezes, iluminado, às vezes, não, mas sempre craque. Elano joga um papel silencioso, pouco vistoso mas decisivo. Aparece com surpresa no ataque. O melhor exemplo foi seu gol. Ele estava parado cinco metros diante da linha central, como um 8 clássico. Caminhava. Quando viu que Kaká ia centrar, acelerou e tocou no canto. Quantos volantes fizeram isso neste Mundial? Costa do Marfim foi o que são quase todos os rivais do Brasil: participantes, dançarinos de tango, escoltas que veem em primeira mão a incomparável superioridade do pentacampeão. Todos parecem temer o Brasil." É uma verdade: até a Fifa treme diante da canarinha. Do contrário, Dunga seria punido pelas ofensas assacadas contra nossos jornalistas.
Pode ser que eu esteja enganado, mas, lendo os comentários dos melhores articulistas esportivos do Brasil e da imprensa argentina e espanhola, cheguei à curiosa conclusão de que argentinos e espanhóis analisam com mais acuidade e até lirismo as partidas do selecionado brasileiro, inclusive a atuação individual dos jogadores. É um estudo mais agudo das táticas, sistemas e lances do escrete tupiniquim. A começar pela exatidão das manchetes: "Brasil, la eficacia sin encanto" (El País-Madrid): "Hoje ganha como antes, mas não nos dá alegrias. Não há samba. Entre os pentacampeões mundiais, o futebol já não é uma arte, uma festa maior, senão tão-somente um ofício. Há muito de italianização germânica neste Brasil tão de Dunga, tão feito à sua imagem e semelhança. Dunga nunca pareceu brasileiro". (Qual jornalista brasileiro já disse isso?). Continua El País: "Como futebolista, ele era capataz de Romário e Bebeto em 1994, como técnico, 16 anos depois, ele é sargento de Luís Fabiano e Robinho, porque o roteiro de Kaká, horrível no início e absolvido no final, não é claro. O Brasil jogou duas partidas: venceu no campo, mas perdeu na opinião pública, razão pela qual os nostálgicos não perdoam a mutação". Agora vejam que bonita constatação: "O Brasil ganhou os corações ao entreter o futebol, que agora só oferece resultados. Não é mais a mãe da invenção, é uma equipe construída para bater. Então, o Brasil pode ser devastador. Uma seleção firme e contundente. Tão candidata ao título como quando era um encanto."
El Clarín (Buenos Ayres): "Quando tiene ganas, Brasil arranca y mata: outra prova da superioridade da equipe de Dunga. Dominou os africanos, tomou o controle da bola, e, quando acertou os passes, liquidou. Dois gols que foram golaços. Desses que os antigos cronistas definiam como "gols de outro partido". Por paradoxal que pareça, o contexto em que joga o Brasil é este: dorme, distrai, é paciente e, de pronto, acelera e define. E liquida e marca três gols que poderiam ser mais, com o mesmo argumento: domina a bola, faz lateral, e zás - saca o revólver e levanta a arquibancada. No primeiro gol do Brasil, Kaká deu um passe para Luís Fabiano como num tubo entre três rivais. Então, o de Sevilha, como um ladrão furtivo, foi assaltando os chapéus da Costa do Marfim, braços, peito e deixou rodapé. Kaká é, às vezes, iluminado, às vezes, não, mas sempre craque. Elano joga um papel silencioso, pouco vistoso mas decisivo. Aparece com surpresa no ataque. O melhor exemplo foi seu gol. Ele estava parado cinco metros diante da linha central, como um 8 clássico. Caminhava. Quando viu que Kaká ia centrar, acelerou e tocou no canto. Quantos volantes fizeram isso neste Mundial? Costa do Marfim foi o que são quase todos os rivais do Brasil: participantes, dançarinos de tango, escoltas que veem em primeira mão a incomparável superioridade do pentacampeão. Todos parecem temer o Brasil." É uma verdade: até a Fifa treme diante da canarinha. Do contrário, Dunga seria punido pelas ofensas assacadas contra nossos jornalistas.
