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13/12/2010Gilberto Freire e o Oriente que Tornou o Brasil Possível - Antônio Campos
13/12/2010
Publicado na Folha de Pernambuco - 13.12.2010
Em 1936, Gilberto Freyre publicou Sobrados e Mucambos, que é continuação de Casa Grande e Senzala e talvez a sua verdadeira obra-prima.
É um belo estudo do embate entre o Ocidente e o Oriente, no Brasil, durante o século XIX, onde defende a ideia de que a cultura brasileira havia sido gerada a partir de uma matriz oriental de valores, hábitos e conceitos sobre o mundo.
Desde muito cedo a ideia de uma orientalidade e de um amouriscamento do Brasil apareceriam na obra de Gilberto Freyre. A impressão de que o Brasil era, de alguma forma, um prolongamento da cultura oriental nos Trópicos.
Na perspectiva de Gilberto Freyre, as conexões entre o Brasil, no período de sua formação, e o Oriente, árabe ou asiático, iam muito além de aspectos arquitetônicos, tendo sido determinantes na conformação da sensibilidade brasileira, em sua visão de mundo e seus valores culturais mais marcantes.
O Oriente tornou o Brasil possível, no dizer de Freyre. Foram os saberes orientais que permitiram a construção da “maior civilização moderna dos Trópicos”. Freyre estava valorizando o Oriente como matriz cultural formadora do Brasil em contraposição a matriz européia.
Nesse sentido, ele destaca o papel exercido pelos navegadores e conquistadores portugueses como intermediários entre as duas metades do mundo, a ocidental e a oriental: Foram com efeito os portugueses que primeiro trouxeram do Oriente à Europa o leque, a porcelana de mesa, as colchas da China e da Índia, os aparelhos de chá, e parece que também o chapéu-de-sol. (Casa Grande & Senzala, p. 275).
Deve-se, aliás, registrar que na maior parte das vezes em que Gilberto Freyre fala em “Oriente”, está, na verdade, se referindo tanto à África, muçulmana ou não, quanto à Ásia. No seu discurso, o Oriente é uma ampla matriz cultural que abriga todos os valores não europeus e, inclusive, antieuropeus. Vejamos: A verdade é que o Oriente chegou a dar considerável substância, e não apenas alguns dos seus brilhos mais vistosos de cor, à cultura que aqui se formou e à paisagem que aqui se compôs dentro de condições predominantemente patriarcais de convivência humana [...] Modos de viver, de trajar e de transportar-se que não podem ter deixado de afetar os modos de pensar (Sobrados e Mucambos, p. 424).
Sobrados e Mucambos apresenta o Brasil do século XIX, como um capítulo relevante da história da luta entre Ocidente e Oriente. O estopim da luta, que, na realidade, é uma guerra simbólica, teria sido a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808: “A colônia portuguesa da América adquirira qualidades e condições de vida tão exóticas - do ponto de vista europeu - que o século XIX, renovando o contato do Brasil com a Europa [...] teve para o nosso País o caráter de uma reeuropeização” (Sobrados e Mucambos, p. 309). Junto com a Família Real vieram produtos ingleses e modismos franceses. Estes chegavam cercados de tal prestígio e poder de sedução, que tornavam difícil a resistência às “vozes de sereia do Ocidente” (Sobrados e Mucambos, p. 453).
O século XIX representou, assim, no Brasil, o fim do “primado ibérico de cultura”, que nunca fora “exclusivamente europeu, mas em grande parte, impregnado de influências mouras, árabes, israelitas, maometanas.
O Oriente perdia a batalha contra o Ocidente, na mesma medida em que a “manteiga francesa”, a “batata-inglesa”, o “chá também à inglesa”, agiam no sentido da “desafricanização da mesa brasileira, que até os primeiros anos da Independência estivera sob maior influência da África e dos frutos indígenas” (Casa Grande & Senzala, p. 458).
Por essa via o Brasil se afastava de si mesmo e se entregava a um processo de descaracterização, numa frágil tentativa de transformar-se numa Europa tropical.
O mundo atual é multipolar e o eixo do poder econômico volta-se novamente para o Oriente do qual temos influência decisiva em nossa formação.
As relações, desavenças e semelhanças entre Oriente e Ocidente são temas de grande relevo. Por essa necessidade de compreensão de nossas raízes e de aprofundar o diálogo entre culturas e países no contemporâneo, é que traremos, na Fliporto 2011, o tema “Orientes e Ocidentes - diálogos”, para discutirmos tal questão e mostrarmos a importante influência oriental na formação do Brasil.
