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29/07/2009Futebol é esporte? - Arthur Carvalho
29/07/2009
A vitória do Estudiantes de La Plata, de virada, por 2 x 1, em pleno Mineirão superlotado, provou que futebol não é só esporte. Que futebol não se ganha apenas em campo, como muitos gostam de dizer.
O que há com os times brasileiros, que já perderam cinco decisivas da Libertadores, em casa, sendo quatro pros argentinos? Por que os brasileiros, reconhecidos internacionalmente como os maiores e mais habilidosos craques do universo, perdem sistematicamente as finais, no Brasil, pros argentinos? Não há a menor possibilidade de os brasileiros vencerem os argentinos numa decisão da Libertadores ou de Copa do Mundo na Argentina. Eles tomariam isso como humilhação, traição ao país. Ali, sim, o futebol é a pátria de chuteiras, o sangue, suor e lágrimas, de Churchill.
Quando os campeões continentais começaram a se enfrentar em Copa Mundial de Clubes, o famoso treinador inglês Alf Ramsey recusou-se a disputar final com os argentinos em Buenos Aires: "Eles são uns animais"! E Puskas: "Lá, começamos a ser agredidos quando desembarcamos nos aeroportos. E não conseguimos dormir nos hotéis".
Ramsey reagiu assim logo depois que o gigante centromédio Rattin, capitão do selecionado argentino, ao ser expulso na partida contra a Inglaterra, em 1966, em Wimbledon, "alisou" a bandeirola inglesa que adornava o pau da bandeira de córner, insultou, deu "bananas" pros espectadores, cuspindo neles, andando sobre o tapete vermelho para provocá-los. Todos os jogadores ingleses que se envolveram na confusão foram escarrados pelos argentinos, inclusive Nobby Stiles, o mais violento da Copa. Ouviram Ramsey, e as finais dos clubes campeões continentais passaram a ser disputadas em Tóquio.
Os argentinos aliam à técnica refinada de deslocamentos, passes curtos e precisos, controle de bola perfeito e cabeçadas certeiras, a deslealdade (eufemisticamente chamada catimba, onde predominam cotoveladas, cusparadas, murros, carrinhos, chapas, ameaças, xingamentos e debochados tapinhas na cara, garra e frieza, com a conivência cínica da pusilânime arbitragem sul-americana) e rígidos esquemas táticos, defendendo-se, na retranca, ocupando todos os espaços vazios do gramado, congestionando o meio do campo e contra-atacando em bloco e velocidade. Seu aproveitamento em escanteios e centros sobre a área (dois fundamentos básicos do futebol) é muito superior ao nosso. Questão de treino, disciplina e sobretudo concentração.
Tudo isso vem de fora para dentro do campo: eles jogam assim desde criancinhas. Questão de cultura. Di Stéfano tentou matar a charada, em frase lapidar, misto de admiração e preconceito racial: "Quando os jogadores brasileiros se "concentrarem" na partida, o Brasil será imbatível". Isso não merece a atenção de nossos treinadores e cartolas e um estudo profundo de sociólogos e antropólogos? Futebol se ganha no campo? Futebol é apenas esporte? Conversando, outro dia, Og Marques de Fernandes e Ivan Brondi achavam que não. Eu também.
