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30/09/2009Fatos e versões - Fernando Araújo
30/09/2009
Publicado no Diario de Pernambuco - 30.09.2009
fernandojparaujo@uol.com.br
Afastado da rotina por alguns dias, retorno e logo faço o meu "dever de casa". Leio os jornais e revistas deixados para trás. Ponho em dia a correspondência. Na bagagem, periódicos e semanais de outras plagas. É o meu prazer, quando viajo. Com os olhos fixos nas páginas, verifico que o país político está em plena temporada de filiações. É que há um calendário eleitoral a exigir filiação partidária com um ano de antecedência do pleito. Nenhuma cara nova entre os filiados, conquanto algumas delas estejam estreiando na política. Como é o caso do ex-pugilista Acelino Freitas, o Popó, agora integrante do PRB/BA. Marcelinho Carioca, jogador de futebol, ex-Corinthians e atualmente no Santo André, filiou-se ao PDT/SP. Edmundo, ex-Vasco etc, entrou para o PP/RJ e Romário é recém-ingresso no PSB/RJ. O PV busca trazer para os seus quadros o escritor Paulo Coelho. Como se pode observar, a ação política no Brasil é muito pragmática. O que importa são os votos e nãoos princípios. E eles podem ser obtidos com mais facilidade por quem está com habitualidade na telinha. São cavacos de um sistema partidário onde a fama eventual das pessoas vale mais do que as ideias. Com efeito, estamos vendo o que vimos em outros períodos eleitorais. No fundo, soçobra a ideologia, que afinal deveria dominar os partidos, como conjunto de valores partilhados. Conclusão: fama e dinheiro transformaram-se em fatores essenciais para vencer eleições. O ex- campeão mundial de Box, o ítalo-canadense Arturo Gatti, cujo corpo foi encontrado sem vida numa pousada em Porto de Galinhas, no dia 11 de junho passado, cometeu suicídio e não foi assassinado, segundo laudo policial. Aliás, autópsia realizada em Montreal, no Canadá, chegou à mesma conclusão. Com isso, a hipótese de homicídio praticado por sua mulher, a brasileira Amanda Rodrigues, de 23 anos, que chegou a ser presa como suspeita, estaria definitivamente afastada. Certo? Errado.
Parte da imprensa canadense ainda não digeriu o resultado das investigações. Por exemplo, o jornal La Presse, de Montreal, de 21.9.2009 dedicou meia página sobre o acontecimento. Com o título Gatti e o jogo das aparências (Gatti et le jeu des apparences), o periódico em matéria assinada pelo jornalista Yves Boisvert coloca dúvidas sobre muitas coisas, inclusive a isenção da polícia e justiça brasileiras. Fala da inclusão da viúva, à última hora, no testamento do de cujos, entre outras suspeitas ("Et puis, bien sûr, les préjugés classiques sur la justice du Brésil: est-elle vraiment fiable? Qui nous dit qu'elle n'a pás été corrompue? Et ce testament, remanié en feveur de la veuve à la onzième heure... Tout cela ne sentait-il pas le cover up?"). O amor vai ser tabelado. É possível? Pelo menos é o que pretendem dois projetos de lei, o de nº 4.294/2008 do deputado Carlos Bezerra, do PMDB/MT e o de nº 700/2007, do senador Marcelo Crivella, do PRB/RJ. O primeiro diz o óbvio: os pais devem dar aos filhos menores a presença e o amor que são indispensáveis para que os jovens vinguem sem carências e feridas que nunca cicatrizariam direito. De igual modo, os filhos dariam esse tratamento aos pais idosos. O segundo trata do abandono moral às crianças. Ambos propõem indenizações, mas o último tipifica como crime a ausência do afeto.
Acontece que esse tipo de carência jamais será solucionado pela regra jurídica. O amor é um sentimento humano, íntimo, fruto da educação e do despertar dos valores positivos no interior do homem. Ele implica na adesão do espírito ao conteúdo de uma regra no interior do ser. Amor autêntico só existe por um movimento espiritual espontâneo. E isso não se impõe.
