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09/01/2011Está lá? - Dayse de Vasconcelos Mayer
09/01/2011
Publicado no Jornal do Commercio - 09.01.2011
dayse@hotlink.com.br
Ensinaram-nos que Alexander Graham Bell, um escocês, havia inventado o telefone. Não explicaram que houve uma disputa acirrada para definição da autoria da patente. Nessa época não se usava este vocábulo. A palavra patente só ganhou popularidade no século 20.
No caso do telefone, a maior disputa ocorreu com o italiano Antonio Meucci que reivindicou a descoberta em 1887. Acabou saindo vitorioso com a decisão tardia do Congresso dos Estados Unidos. De toda maneira, o nome de Graham Bell ficou amarrado ao invento do telefone.
Esta conversa aparentemente sem coerência pretende discutir os efeitos perversos do telefone nos dias atuais. E não quero ou não desejo falar da emulação entre prestadoras de serviço, das faturas mensais que recebemos com ligações não realizadas, da publicidade enganosa, da inclusão de cláusulas contratuais abusivas e atentados outros ao direito dos consumidores (as companhias telefônicas e os planos de saúde lideram o ranking de reclamações judiciais). Estas são outras histórias. O tema é outro: a necessidade de observância de um manual de regras de cortesia sobre o uso do Bell. Poderia ser escrito por Danuza Leão naquele estilo bem light. Ninguém duvida de que não é fácil usar o aparelhinho seguindo os modos corteses que podem adocicar ou suavizar as relações sociais, barrando os conflitos já conhecidos. Por esta razão compreendo o receio de uma das minhas ex-alunas de eleição - a advogada Ana Meira. Sempre que me procura, recorda a minha inquietação ou impaciência quando o celular tocava em sala de aula. Como é óbvio, a falta de educação se aplicava e aplica tanto ao aluno como aos professores.
A questão é que gosto de receber ligações telefônicas. O que não suporto é a invasão da minha privacidade: vendedores de serviços, pedidos insistentes de doação, pesquisadores de opinião, comunicadores de prêmios inexistentes, portadores de má notícias... No último caso, eu diria que nada é tão eficaz para instalar a insônia como uma notícia ruim durante a noite. Afinal, quase tudo pode ser deixado para o dia seguinte, exceto as situações de doença em que é indispensável o concurso de um profissional e a busca de um parente ou amigo para servir de acompanhante hospitalar.
O maior problema do campo da telefonia é o repasse pelos "amigos" do número do nosso celular às secretárias. Três motivos justificam a adoção do sistema: o desejo de revelar importância ou poder, a necessidade de ganhar tempo com descaso pelo tempo do outro, o receio de não ser identificado imediatamente pelo destinatário da ligação. Já aconteceu comigo. Por esta razão opto pela estratégia de abre-alas das escolas de samba: envio um e-mail prévio. É desagradável escutar do outro lado o nosso nome seguido da expressão: "De onde?". O esquema é muitíssimo adotado pelo sexo masculino, designadamente quando o cidadão está ao lado da mulher, noiva ou namorada. O homem perde a espontaneidade, tartamela, engrossa ainda mais a voz como se existisse uma história de pecado e de cumplicidade. Há uma estratégia por vezes pior: quando o atendente informa que a ligação está errada ou sugere que o interlocutor fale com a sua secretária porque a agenda ficou no escritório ou consultório ou está dirigindo. Convertem-se os desgraçados em seres infelizes sempre monitorados por mulheres inseguras, doentes e mal-amadas. É diferente no Sul do País? Não posso dizer. Afinal, não quero ser responsável por desencadear uma guerra de secessão. Fiquemos apenas neste rincão de Deus.
O pragmatismo dos portugueses deveria ser imitado pelos brasileiros neste campo. Embora tenhamos o mesmo DNA, eles têm o cuidado de usar telemóveis diferentes de acordo com a situação. Quando não desejam ser perturbados, desativam o aparelho registrado nos cartões de visita. Também adotam uma regra muito simples: ninguém liga para o outro antes das nove da manhã e após as 23 horas. Telefone residencial deve ser reservado para parentes, amigos e autorizados. Com estas pequenas regrinhas de bom senso, basta você usar uma frase: Está lá? e receberá, incontinenti, a resposta: "Sim, estou". E tudo isso com excesso de cordialidade e educação. É difícil? Creio que não.
