Esquecendo a Copa - Arthur Carvalho

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14/07/2010

Esquecendo a Copa - Arthur Carvalho

14/07/2010
Esquecendo a Copa - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 14.07.2010

Fui esquecer a Copa em Gravatá. Falar nisso, recebi e-mail de uma gaúcha querida dizendo que ficou de cabeça inchada, depois de derrota pra Holanda, e achou que ela duraria quatro anos, “mas logo sarou com um bom remédio (ou consolo) - o resultado do jogo da Argentina...”

Comprei uma coleção de CDs de compositores brasileiros, quatro livros de Zé Lins do Rêgo, e subi a serra. O primeiro CD que ouvi foi o de Sinhô. Que beleza! Que personalidade complexa e fascinante! Que letras incríveis! O segundo, Jackson do Pandeiro. Sua interpretação de Canto da Ema é fantástica, duvido que alguém possa ultrapassá-la. Somente três cantores rivalizam com Jackson do Pandeiro na divisão do ritmo: Orlando Silva, Lúcio Alves e Miltinho. Assim mesmo, sou mais (na divisão do ritmo) esse paraibano genial, que morreu pobre. Agora sei porque Luiz Gonzaga foi tão cauteloso, se recusando a participar de qualquer show com ele: “Dois bicudos não se beijam.”

Levei também o esquecido Ataulfo Alves e Jacob do Bandolim. Outro dia, li, não me lembro onde, comentário de crítico estrangeiro dizendo que Jacob do Bandolim foi o maior instrumentista popular do século 20. Há intérpretes e músicos assim, que, depois de gravarem uma música, ninguém deveria gravar mais. Existem muitas gravações de Ronda, de Paulo Vanzolini, feitas por grandes intérpretes. Nenhuma delas chega aos pés da de Carmem Costa. Quem gravaria melhor Mensagem do que Isaurinha Garcia? Ninguém gravou Maria Betânia, de Capiba, igual a Nelson Gonçalves. Ninguém gravou Rosa e Carinhoso melhor do que Orlando Silva. O lídimo intérprete de Lupicínio Rodrigues foi Jamelão, um cantor estupendo. E a principal intérprete de Noel Rosa foi Marília Baptista e não Aracy de Almeida, como muitos dizem. Mário Reys foi quem melhor recriou a obra de Sinhô. E ninguém cantou Dorival Caymmi melhor do que ele mesmo. Algumas gravações de Sílvio Caldas, principalmente Favela, de Roberto Martins e Waldemar Silva, continuam insuperáveis. E o que dizer de Ave-Maria, na voz personalíssima e inconfundível de Augusto Calheiros, a Patativa do Norte, e de Besame Mucho, de Consuelo Velazquez, por Lucho Gatica?

Cheguei ao sítio, a lua cheia estava bonita, armei a rede na varanda, liguei o som baixinho, para ouvir os sambas de Ismael Silva, e abri Meus Verdes Anos. Ainda na sacola, Menino de Engenho e Doidinho. Nada como a releitura e como uma boa música e um autor de estilo maneiro e coloquial para esquecer as brutalidades de Felipe Melo, as grosserias de Dunga, figura tremebunda, autêntico nipo-nazi-fascista, de uma burrice estúpida e petrificante. O futebol brasileiro não merecia isso, mas o culpado foi quem o convidou, e que se chama, com licença da palavra, Ricardo Teixeira, homem sem mácula. Perder a Copa longe daqui não é tão traumático como perder aqui dentro. E a próxima é no Brasil. Que os cartolas evitem enveredar pelo terreno escorregadio da filosofia especulativa e ouçam a voz do povo e sábias conversas de botequim, para escalar o verdadeiro selecionado brasileiro. 

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