Elton John e Nietzsche - Fernando Araújo

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26/02/2010

Elton John e Nietzsche - Fernando Araújo

26/02/2010
Elton John e Nietzsche - Fernando Araújo

Publicado no Diario de Pernambuco - 26.02.10

fernandojparaujo@uol.com.br

O pronunciamento de autoridade ou de pessoa famosa sempre ganha muita repercussão. É natural. E as razões são simples: dos homens de estado são emanadas as normas sociais e outras que balizam as nossas vidas. Os artistas e os intelectuais são alvo de nossa admiração. Apesar disso, não somos obrigados a concordar com tudo que eles fazem ou dizem. A seguir, enfim, todos os seus passos. Temos as nossas próprias convicções e pontos de vista. Ademais, as pessoas têm seus métodos e modos de dizer e fazer as coisas. E isso em parte nada tem a ver com seu talento ou arte específica. Fiz esse preâmbulo para mencionar o meu não espanto pelo recente pronunciamento do cantor Elton John à revista americana Parade, que acabou, depois, indo parar na internet. Elton, indiscutivelmente excelente cantor e compositor, afirmou que Jesus era gay. "Eu acho que Jesus era misericordioso, um homem gay superinteligente que entendeu os problemas da humanidade. Na cruz, ele perdoou as pessoas que o crucificaram". Este foi o segundo pronunciamento do cantor em torno de tema religioso a merecer grande destaque. Em novembro de 2006 ele disse ao jornal britânico The Observer "Que as religiões deveriam ser banidas", porque elas buscavam atrair o ódio para os homossexuais. Fato de igual notoriedade aconteceu em 1966, quando o ex-Beatle John Lennon declarou ao jornal britânico Evening Standard ser o seu conjunto mais importante do que Jesus Cristo. Em 2008, como é sabido, o Vaticano o perdoou. Este novo episódio ao meu sentir não merecia tanto espaço, salvo algum inconfessado interesse comercial por trás de tudo. Todos que admiramos o artista, desconhecemos nele, contudo, autoridade para tal abordagem, dita aliás sem base empírica, científica ou teológica. Uma mera liberdade de expressão. Por isso, de todos os comentários que li e ouvi, em jornais e na internet, fico com o da doutora em ciências da religião da PUC de São Paulo, Regina Soares: "O cantor usou a frase como elemento de legitimação da homossexualidade". Uma forma de atrair mais respeito pela sua opção sexual em face de tanta intolerância, muito embora a quase totalidade das constituições ocidentais proíbam tal discriminação, inclusive a brasileira de 1988 (art. 5º).

Lendo a matéria sobre o cantor britânico, lembrei-me de Friedrich Nietzsche (1844 - 1900). Filósofo de grande inteligência e capacidade crítica, influenciador de tantos outros pensadores. Todavia, tinha verdadeira paixão pela polêmica, que segundo o autor inglês Nicholas Fearn, filosofava como quem usa um martelo para perscrutar ídolos. E sempre expressava seus pontos de vista com aforismos metafóricos brincalhões. Suas palavras eram duras e geravam revoltas. Atacou o saber, a ciência, a matemática e a dedução lógica. Tripudiou da própria linguagem. Bateu no iluminismo, asseverando ser ele uma crença na razão "que não se sabe de onde veio". Atacou o cristianismo e a transcendência. No dia 3 de janeiro de 1889, em Turim, o filósofo ao presenciar um cocheiro chicoteando um cavalo, abraçou o pescoço do animal em choro profundo, numa atitude não-nietzschiana. Não foi por isso que passou para a história. Elton também não ficará pelo que disse agora, mas pelas belas músicas que fez.

 

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