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10/03/2011Drummond e os bairristas - João Humberto Martorelli
10/03/2011
Publicado no Jornal do Commercio - 10.03.2011
Certo frisson instalou-se no meio intelectual nordestino com as cartas do poeta Carlos Drummond de Andrade a seu amigo Cyro dos Anjos, reveladas na edição de fevereiro da revista Bravo!, nas quais se denota preconceito contra a região. Em carta de 4 de agosto de 1936, o poeta escrevia ao amigo: "Ainda não pedi notícias de seu romance, que me interessa muito. É da maior importância que você o conclua, contribuindo para que se retifique o conceito atual de romance entre nós. A mim não me satisfaz nem a transcrição imediata e anti-crítica de aspectos de uma vida regional, como fazem os rapazes do norte (entre parênteses: como escrevem mal!), nem essa literatura `restaurada em Cristo´ com que nos aporrinham os pequeninos gênios marca Lúcio Cardoso". Em carta de 11 de outubro de 1953, escreveu ele: "O arraial das letras anda muito alvoroçado com os últimos produtos do engenho nordestino, que são uma tragédia de Raquel, onde os personagens se matam a metralhadora em cena aberta, e o romance de Zé Lins (...) O livro de Raquel, pelo menos, tem o mérito de uma linguagem saborosa, mas falta-lhe sequer resquício de interesse psicológico, pois a alma de Lampião e de seus cabras é tão elementar como a do Zé Lins. Já o livro deste lucraria talvez em arte se fosse escrito pelo próprio Lampião".
À parte a cruel observação quanto ao talento dos romancistas nordestinos, feita na primeira carta, a reação bairrista aos textos deve ser precedida de uma reflexão sobre o contexto literário do poeta mineiro. Drummond se caracteriza pelo horizonte cosmopolita e universal em que planta e persegue a visão idealizada do mundo, mas a partir do mundo concreto de seu tempo, atual, do qual extrai filosofia de vida perpetradora de mudanças. A reprodução pura e simples da realidade regional apontada por ele como anticrítica (talvez quisesse dizer mesmo acrítica) não passaria de mero retrato, um instantâneo, um fato histórico preso em seu próprio tempo e circunstâncias sem capacidade de converter a realidade, significando a inércia artística, a arte desprovida de meios de transfiguração da realidade, de idealização. O regionalismo então se confundia com o geografismo, o homem sendo absorvido, na ficção, pela natureza que o moldava e lhe dava o padrão existencial, logo seguindo-se o regionalismo do pitoresco, do linguajar local, como se as criaturas somente devessem ser narradas por suas particularidades e não, por sua universalidade, como bem observa Werneck. O regionalismo, em certa medida, insinuou-se no próprio movimento modernista e Drummond é um pós-modernista. Não é sem propósito anotar também que a carta foi escrita em 1936, quando ainda não pontificara Graciliano Ramos, cujo romance Vidas secas (1938), exemplo de regionalismo, partiria da descrição da paisagem física para apontar nela as profundas influências na alma do homem, superando a superficialidade do gênero, a seca como pano de fundo para os conflitos apresentados por toda a sociedade brasileira de seu tempo, conquistando a plataforma cosmopolita e universal que se pretende em toda obra de arte. Quero dizer, a partir da interpretação de época de Werneck, que Drummond lutava, no texto comentado, por uma literatura universal, logo surgida em Graciliano, não era contra o regionalismo e nem contra o nordestino, mas contra o regionalismo superficial e exterior que caracterizava o romance brasileiro da época.
E essa percepção da arte universal, somente tendo sentido quando atinge a essência das coisas, não se limitando ao descritivo, está presente em toda a obra poética de Drummond. "Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto". A arte, não o fato, atinge a essência.
