Dos brinquedinhos antigos - Arthur Carvalho

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09/06/2010

Dos brinquedinhos antigos - Arthur Carvalho

09/06/2010
Dos brinquedinhos antigos - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 09.06.2010

Não sei por que tanta celeuma em torno de sexo na Copa. Pode? Não pode? Está liberado? Proibido? Esse negócio de não gostar de vinho, sorvete e sexo tem a cara de Dunga, e Freud explica. Como explica aquela mão no bolso ao cumprimentar o presidente da República.

Por incrível que pareça, podemos encontrar justificação do sensacionalismo e da questão em Menino de engenho. No livro, o primeiro do autor, em tom de autobiografia romantizada, José Lins do Rêgo conta suas experiências sexuais aos 12 anos, com a negra Zefa Cajá, sem remorso algum, pois já estava acostumado a ver, ainda criança, com os moleques da bagaceira, os animais no coito ("a impetuosidade dos touros por cima das vacas"), no Engenho Corredor, de seu avô, onde passou a infância livre, encarando, portanto, o sexo como coisa natural.

Tudo mudou quando, interno em colégio do Recife, recebeu educação religiosa e "aprendeu" que sexo é pecado - e o pesadelo "refletiria em toda a minha vida, como uma desgraça".

Esse sentimento de culpa, de ameaça e condenação com o fogo eterno dos infernos, propagado e ainda vigente nos conventos, seminários, noviciados e internatos religiosos, perdura na cultura e no subconsciente da nossa população. Vejam que o tema só interessa aos selecionados de origem latina, como Argentina e Brasil. Nessas embaixadas, o assunto continua tabu e notícia.

Precisa ainda ser avaliado, o aspecto físico e atlético. Hélio Grace, campeão brasileiro de jiu-jítsu, seu introdutor e professor no Brasil, guardava castidade durante dois meses antes de cada combate. Ele achava que sexo antes da competição exaure as energias do lutador. Era tão cuidadoso em poupar forças que não concedia entrevista no dia da briga, muito menos a locutor de pista quando subia no ringue. Talvez ele tivesse razão - sua luta livre com o ex-aluno Waldemar Santana durou mais de duas horas, e eles deixaram o tablado ensanguentado. O duelo de seu sobrinho Carlson Grace com o mesmo Waldemar Santana, no Maracanãzinho, foi tão violento, que fez o chefe de polícia do Rio de Janeiro, general Amaury Kruel, suspender o massacre.

Penso que o sexo deve ser franqueado, em qualquer delegação de qualquer país, não somente para aliviar as tensões do jogador que está confinado na concentração, por longo tempo, mas também por ser atividade prazerosa e reguladora dos hormônios do homem e da mulher. Segundo o saudoso médico capunguense Toinho Ferreira Lima, "dos brinquedinhos antigos (o sexo) ainda é o melhor".

Claro que tudo tem limite: até água demais mata por afogamento. Na medida exata, sexo faz bem à saúde. Argemiro (El Kid Bengala), 66 anos, autoridade no assunto, que caminha conosco na Beira-Rio, acha que o ministro Temporão exagera, e pondera: "Cinco é muito. Bastam três vezes por semana. De preferência, galetinho." Atualmente, e apesar das bazófias, Kid foge de uma amazonensezinha como o diabo da cruz, poupando e preservando a máquina já um tanto enfadada.

O caso é sério. João Saldanha conta que flagrou dois rapazes do escrete de 70, se beijando, agarradinhos na cama. Uma coisa é certa: na África do Sul, a turma não encontrará dificuldade para namorar. Jovens, sarados, famosos, solteiros, dinheiro no bolso, nunca toparam e nem toparão problema em lugar algum. Nem os casados, que ninguém é de ferro e não se deve dizer desse pão eu não como e dessa água não bebo.
 

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