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22/07/2011De pessoas Cavalcantis - Enéas Alvarez
22/07/2011
Publicado na Folha de Pernambuco - 22.07.2011
Os Organismos da Cúria Romana, onde são feitas as mais competentes e rigorosas pesquisas para investigar a vida dos candidatos à canonização não sabem que estão a perder a oportunidade de ter em seus quadros um advogado tão capaz de sondar, em suas prospecções, os meandros da vida de alguém, como o pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho.
Nos anos 1960, quando cursávamos Direito na Unicap, José Paulo teve sua vida prescrutada por um de nossos (pasmem!) colegas de turma, isso resultando na impossibilidade de colarmos grau no mesmo ano. O implacável Decreto 477 o cassou - juntamente com mais três inocentes colegas - fazendo com que nós outros prestássemos, aos quatro, uma calorosa homenagem, dizendo-se, por isso, que eles se formaram em Direito duas vezes. Foi pior a emenda do que o soneto.
Por que tantas considerações sobre descobertas da vida de alguém? Porque às vésperas dos 45 anos de sua primeira formatura, José Paulo vem demonstrar ao Brasil e ao exterior tudo o que pode fazer o faro humano em termos de desvendar o passado de alguém, desde as ansiedades sexuais até à culinária preferida como a de um escritor do porte de Fernando Pessoa.
José Paulo nos deu uma quase autobiografia do poeta português, instalando nos seus leitores a perplexidade de perceber um tal envolvimento que - me permitam a hipérbole - eu chamaria de psicossomático, entre ele e o tão cantado e decantado poeta fingidor.
O livro de José Paulo é uma sala de aula, onde o próprio Pessoa, diriam os espíritas, re-encarnaria alegremente, para dizer de si coisas que, creio, não teria ousado revelar, se fosse, ele mesmo, o narrador de suas vicissitudes.
Não que haja alguma impropriedade em seus caminhos. Não, não é isso. Mas é que certos pormenores, aparentemente irrelevantes, são promovidos pelo biógrafo a patamares mais elevados, em contraponto, aqui e ali, com outras situações que só a perspicácia permite descobrir.
Assim foi, por exemplo, com a boca de cravo roxo de uma certa dama, ironicamente referenciada pelo poeta, que, logo a seguir, JP descobre ter ilação com o soneto dos chamados poetas malditos, Rimbaud e Verlaine, quando decantam o ânus humano, a que classificam de obscuro e franzido como um cravo roxo...
Como vêem, li o livro com uma lupa. Pena não ser crítico literário para discorrer aqui sobre estilos, escolas e metodologias literárias. Prefiro falar como um leitor comum, que se espantou com o volume do livro, um catatau que, ao contrário de desestimular a leitura, nos põe a mergulhar em suas páginas, indo e vindo, lendo e voltando, conferindo e reparando, isso sem falar no deleite dos curiosos rodapés, verdadeiros licores escritos, como me ensinou, certa vez, o inesquecível mestre Esmaragdo Marroquim.
Soube que em menos de dois meses do lançamento, a obra multiplicou, já, as edições, com outras previstas para lançamento até no além-mar. Isso é incrível! José Paulo Cavalcanti honra o rol de escritores pernambucanos, justificando o denso e inesquecível discurso que Maria do Carmo Campelo de Melo proferiu em sua posse na Academia Pernambucana de Letras, peça que o nosso Marcos Vinícius Villaça há de superar, quando o apresentar, breve e pernambucanamente, à ABL. Nesse dia, eu me mandarei para o Rio, para sorver um Porto com Bolo-de-Rolo, que dona Maria Lectícia não nos haverá de negar.
