Crítica da razão cínica - Dayse de Vasconcelos Mayer

Notícias

16/08/2009

Crítica da razão cínica - Dayse de Vasconcelos Mayer

16/08/2009
Crítica da razão cínica - Dayse de Vasconcelos Mayer

Publicado no Jornal do Commercio - 16.08.2009

dayse@hotlink.com.br

A crítica da razão cínica é o título de uma das obras do filósofo alemão Peter Sloterdijk. A expressão, ainda pouco elucidada, poderia receber a tradução de razão corrupta, desavergonhada, imoral e hipócrita. Estaríamos a analisar, por certo, o panorama da política brasileira, sobretudo nestes últimos tempos. Mas este não é o objeto da crônica. Aliás o cinismo é uma espécie de desvio patológico que se instaura ou se aloja em diferentes campos. Designadamente naquele espaço de gozo esfaimado da sociedade globalizada. Identifica-se com a palavra kynisme com o sentido de desfaçatez e pouca-vergonha. Ainda que não pudéssemos ignorar os entreveros da política nacional, nada custa insistir no fato de que o tema deste artigo é o cinismo-deboche numa outra esfera ou dimensão humana.

Tudo começa no exato instante em que as cortinas do palco se abrem e o apresentador anuncia a presença da escocesa Susan Boyle, uma mulher esgrouvinhada (prefiro não usar a expressão mulher feia e desengonçada) com a fisionomia de campônio ridente e bizarro. Além dos problemas neurológicos, o rosto e o corpo não revelam qualquer lampejo de sedução. Ao contrário, assanham o desejo de qualquer bom cirurgião plástico. A candidata havia escolhido a música "I dreamed a dream", do musical Les miserabiles. Aleluia! Repentinamente, o achincalhe ou surriada da platéia se converte em fascínio. Mas aí começamos a fazer algumas conjecturas malévolas acerca da escolha do musical. Teria prevalecido uma razão cínica? Aceitemos, contudo, uma versão menos corrosiva. Afinal, não é apenas nos EUA que o presidente pode afirmar "Sim, nós podemos". O mesmo poderia ter sucedido na Grã-Bretanha com a anticinderela do século 21. A questão que nos incomoda de fato é a existência de um comportamento perverso capaz de dificultar, barrar e frustrar o grande sonho daquela pobre mulher. É fácil de entender. À fase da celebridade instantânea ou dos 15 minutos de fama, segue-se uma espécie de orgasmo social. É o momento em que a platéia "deleta" da memória os efeitos do canto do cisne, agora muito mais interessada em duas palavras: fascínio e dinheiro.

Na área específica da beleza, os californianos estão modulando seus corpos em espaços considerados surpreendentes, mulheres e homens chineses quebram as pernas para terem os membros mais longos, sem curvaturas e com alguns centímetros adicionais, rapariguinhas portuguesas reservam parte do seu tempo para o arrebite das nádegas, jovens brasileiras enchem o corpo de tatuagens e grampos e nas clínicas de cirurgia estética senhoras de fino trato vendem a alma - e sem recibo para controle do imposto de renda - para receberem o milagre do rejuvenescimento. Beleza, agora, é, além de fundamental, sinônimo de poder. Também o é a saúde ou a disposição física. Afinal, ninguém oferece emprego e voto a velhinhos cansados e combalidos.

Recentemente um cidadão foi convidado para prestar serviços numa importante empresa. Por uma dessas tristes coincidências, o azarado teve que conceder hospedagem provisória à gripe equina, suína, bovina ou junina (a última palavra é invenção de Ivanildo Sampaio). Providencia o atestado médico. Todavia, nem mesmo a ameaça de internamento consegue inibir a ferocidade do departamento de pessoal. Ativada a burocracia, o enfermo ainda recebe uma notificação singular: havia sido "formatada" (eis a nova invenção para os especialistas em RH) uma reunião de trabalho com a presença dos dirigentes maiores da entidade e todos os empregados deveriam comparecer. A vítima da gripe sentiu dificuldade de retenção do informe. Na cabeça ainda combalida só conseguia recordar a frase de Jesus: "Lázaro levanta-te e anda!". Infelizmente, o novo milagre não aconteceu. Por isso o proletário teve que se conformar com o desconvite - uma característica dos novos tempos. Moral da história: os gregos que criaram Afrodite e Adonis antes de procurarem a realização substantiva do homem talvez tenham conduzido a uma deformação do humanismo, nomeadamente nas formas de vaidade e autocontemplação narcísica. Quem sabe se tudo isso não constitui um bom material para justificar a presença, hoje, de uma razão provocadoramente cínica?
 

Voltar