Como se eu mandasse nas palavras - João Bosco Tenório Galvão

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01/08/2011

Como se eu mandasse nas palavras - João Bosco Tenório Galvão

01/08/2011
Como se eu mandasse nas palavras - João Bosco Tenório Galvão
Publicado no Diario de Pernambuco - 01.08.2011

Assim começa a canção da fadista angolana Mariza: Como se eu mandasse nas palavras, pediram-me que a dor fosse um sorriso... Que poder, transformar o sentido das palavras, do verbo, onde tudo começou! Transformar as notícias de dores noticiadas aos milhões vindas do atentado da Noruega em bilhões de sorrisos. O minuto de silêncio decretado poder ser ouvido como músicas seculares de festas e alegrias. Com o mando verbal transformaríamos a insanidade em bom juízo. As crianças na distante Noruega estariam perto do nosso carinho e cantos de ninar, pois, com o mando das palavras elas jamais teriam medo, pois o medo mandaríamos que lhe apelidasse de confiança. A monstruosidade do louco ariano bem que poderia ser convertida num aperto fraterno de mãos, pois a verdade trágica seria convertida em doce mentira, pois onde o sol nos incomodasse o mesmo seria lido e sentido como lua. As explosões de bombas assassinas e o pipocar de fuzis demoníacos seriam transformados em bolhas de sabão que se arrebentam diante da alegria das crianças e no estouro de sacos de confetes e desenrolar das serpentinas de um belo e estranho carnaval, pois nada seria definitivamente escrito.

O definitivo seria sempre o dia onde não existiu choro nem ranger de dentes, só gargalhadas de alegria. Não! Não quero dar a fadista o poder de mandar nas palavras, pois o seu canto é triste, nos agrada, mas é triste. É um canto que fala do sal das águas, da aridez dos desertos, da dor da solidão, de amores frustrados, pois o fado quase sempre é um canto à dor. Que mal acometeu ao jovem terrorista? Que sal lhe fez mal à alma? 

Quem lhe furtou os sentimentos, conferindo-lhe soberba e fria crueldade que já não se pode transformar. O manifesto racista, tolo e inculto, a justificar a cruel loucura. Não sabe o louco terrorista que todos somos pó? Que todas superioridades do homem sobre o homem desaparece na hora da morte, que a nós todos nivela. Em pleno século 21 ainda existem insanos acreditando em raças superiores, como se todos nós não fôssemos criaturas do mesmo barro, barro por sinal escuro. Mas, deixemos as insanidades nórdicas pra lá. Temos as nossas. Poderosas e tristes. Todo fim de semana em nossas capitais morre muita gente pelas mãos de morenos igualmente insanos. A violência nos aprisiona, o que é triste. Nos resta o refrão de outro fado, este cantado de forma épica por Amália Rodrigues dramatizando o desaparecimento de um belo e alegre bordel, onde às prestadoras dos serviços pertinentes ao local, possuídas pela melancolia, só restou como amelhor das opções, aditada por Mariquinha, a patroa, de que com umas ginjinhas, dessem de beber a dor!

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