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19/03/2011Como dói - Clávio Valença
19/03/2011
Publicado no Jornal do Commercio - 19.03.2011
Saramago já mostrou e provou que, como todo ser humano, a morte está sujeita a erros. Sim, como todo ser humano, eis que desumana não é. Não é vegetal nem mineral. E, restando-lhe a animalidade, dela não se pode dizer que seja irracional. Racionalíssima, é dotada de todas as qualidades e defeitos dos racionais: às vezes recalcada, outras complexada, traumatizada. Quando dela se exige colocar um fim naqueles a quem se afeiçoa, queda-se tão contrariada que, desastradamente, destrói dois ou mais que nada têm com o real condenado. Chora enquanto acompanha o féretro. Reza. Pede ao Superior pela alma dos extintos. Arrepende-se. Pensa em autoflagelação, em suicídio. Mas como fazê-lo, se não pode repassar obrigações somente suas. Na maioria das vezes, porém, age como os burocratas. Não indaga o porquê. Não discute necessidade ou ocasiões.
Por desídia, irresponsabilidade ou excessos quaisquer, inclusive de zelo no cumprimento do seu dever, sem olhar a quem atinge na execução de suas tarefas, inacessível como é - ou tenta se mostrar -, vai levando sua vidinha dedicada a extinguir as dos outros.
No que me diz respeito, tem se mostrado absolutamente negligente. Duas ou três vezes tentou cumprir ordens recebidas não sei de quem e correu para me buscar, o que não aconteceu graças à atuação impecável dos meus zagueiros: Oscar Coutinho, Eduardo Lima, Marcos Magalhães e Carlos Abath. Assim mesmo, com nome e sobrenome que os têm os atletas atuais. Craques conhecidos por apelidos ora inexistem. Já não se fala em Pelé, Didi, Vavá. Hoje até o meu Santa Cruz está cheio de pomposos nomes completos. Espero que continuem a se tratar por bicho, negão, outras intimidades, e não comecem a se comunicar como excelências, pronome tão parecido com excrescências.
Às vezes, no entanto, sem razão aparente, salvo a desmedida vontade de agradar seus chefes, exímia puxa-sacos, começa a atuar sem que haja qualquer recomendação superior, sem planejamento ou programação, movida, parece-me, por puro exibicionismo. Resolve se mostrar poderosa e se faz, injustamente, condutora de um grupo. Nesse caso, escolhido sem qualquer critério, justo ou não, onde prevalece a heterogeneidade para confirmar a tese.
Assim é que, ante a dificuldade para me atingir, receosa de alguma punição, tenta encobrir sua falha aumentando a própria produção. Por iniciativa pessoal, resolve apresentar números que lhe parecem convincentes.
Para tal, na ânsia de resultados, ataca furiosamente, escolhendo apenas regiões mais ermas, onde menor é a repercussão de seus atos, embora estes sejam mais sentidos.
As ocorrências nas comunidades menores sempre têm menor espaço nos meios de comunicação e, quando catastróficas, ganham as manchetes por pouco tempo. São logo esquecidas, sem que se saiba ou se procure saber de quem a autoria, a culpa, quem o responsável.
Covarde, a dissimulada me ataca pelos flancos e fere fundo: leva em curto espaço temporal o meu amigo Toinho Costa, caráter sem mácula, orgulho dos conterrâneos, Ilo Mota, escrivão, o meu mestre e dos advogados de minha geração, e, por último, a doce Lucinha, tabeliã e escrivã que, em Pesqueira, sofria ao protestar um título, sangrava ao datilografar um mandado de despejo. Francamente, São Bento não merece tamanho maltrato. Não mais que retratos na parede, mas como dói.
