Coerência! - Arthur Carvalho

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19/05/2010

Coerência! - Arthur Carvalho

19/05/2010
Coerência! - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 19.05.2010

Segundo o nosso Aurélio, coerência é a "qualidade, estado ou atitude de coerente, ligação ou harmonia entre situações, acontecimentos ou ideias, relação harmônica, conexão, nexo, lógica."

Portanto, Dunga tem razão quando diz que sua lista de convocados obedece a uma "coerência". Mesmo porque a coerência tanto pode estar a serviço da inteligência como a serviço das trevas da burrice que, conforme o escritor André Carneiro Leão, costuma vir aliada à ignorância. Dunga: "Se você não confiar em ti (sic) próprio, não adianta."

Conheci um advogado gaiato que assumia: "Tenho consciência de minha mediocridade. Afinal, não sou nenhum Orlando Gomes nem Teixeira de Freitas. Pobre da humanidade se não fossem os medíocres - são eles que alavancam o mundo." O saudoso cronista Renato Carneiro Campos desprezava solenemente o "bom senso". O que seria da literatura universal se o epilético Dostoievski e o quase suicida Joseph Conrad fossem homens "equilibrados" e de "bom senso"? O que seria das artes plásticas se Van Gogh fosse "normal"? Questionava ele.

Em 1950, Flávio Costa não convocou Heleno de Freitas para a Copa. Heleno era o maior centroavante do Brasil. Tinha sido campeão carioca com o Expresso da Vitória do Vasco da Gama, em 49. Não convocou Mauro Ramos, o melhor beque central do Brasil, campeão sul-americano de 49. Preferiu Juvenal e Nena, um arranca-toco que jogava com as meias arriadas, dando porrada. Não escalou Nilton Santos, porque a Enciclopédia do Futebol usava chuteiras bico fino e, para Flávio, jogador de defesa tinha que calçar "chuteiras bico duro", para "isolar a bola". Em seu lugar, Bigode, half-esquerdo sem recursos, tomou baile de Gighia, e ali o Brasil perdeu a Copa. Flávio Costa foi coerente com seu passado de half do aspirante do Flamengo, quando atendia pelo sugestivo apelido de Alicate, pertencendo também à temível Polícia Especial do Estado do Rio de Janeiro, durante a ditadura Vargas.

Para jogo da Seleção no Pacaembu, ele escalava: Bauer, Ruy e Noronha, a linha média do São Paulo, no comando do ataque, Baltazar, centroavante do Corinthians, para agradar os paulistas. No Maracanã: Bauer, Danilo (Vasco) e Bigode (Flamengo), centroavante, Ademir (Vasco), para bajular os cariocas. Haja coerência! Mas, e o conjunto?

Em 54, Zezé Moreira cortou Zizinho, nosso virtuoso armador. Não convocou Garrincha e escalou Brandãozinho de centromédio, sendo dono da posição Dequinha. Levou Pinheiro, um brutamontes, em detrimento de Mauro Ramos. Assim, ele foi coerente com seu passado de médio medíocre do Fluminense, inventor da retranca no Brasil (marcação por zona) e integrante da Polícia Especial do Estado Novo.

Zagallo, que herdou de João Saldanha o time de 70 pronto, botou o pipoqueiro Paulo César para atuar recuado de ponta-esquerda, se espelhando na sua figura de ponta-recuado, muito aquém de Canhoteiro e Pepe, até que a torcida brasileira preferiu Rivelino. Interessante como ex-jogadores medíocres não gostam de craque. Zagallo passou a vida barrando Ademir da Guia e Dirceu Lopes, considerado por Garrincha o maior jogador do mundo à época. E quando, pressionados pela imprensa escalam craques, armam esquemas que os inutilizam, reduzindo-os a pernas de pau, como Parreira fez com Raí em 94, nos Estados Unidos. Por coincidência e coerência, Zagallo e Parreira detestavam Romário - e se não fosse o baixinho na decisiva partida contra o Uruguai, no Mário Filho, ambos passariam como os primeiros técnicos a perderem as eliminatórias comandando o Brasil. E só lhes restaria o emprego de treinador do Íbis, se saíssem vivos do estádio.

P.S. – Telefonema do engenheiro Paulo Cunha: "O nome certo era Pernambuco Autoviária Ltda. E não Autoviária Pernambucana, como você escreveu." Grande Paulo!
 

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