Ciúme: paixão perigosa - Roque de Brito Alves

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09/02/2011

Ciúme: paixão perigosa - Roque de Brito Alves

09/02/2011
Ciúme: paixão perigosa - Roque de Brito Alves
Publicado no Diario de Pernambuco - 09.02.2011
 
jodigitacao@hotmail.com

1 - Crimes ultimamente ocorridos em nosso país sempre sob alegação de ´por ciúmes`, demonstram, por si mesmos, que o ciúme é uma paixão perigosa, criminógena, por sua própria natureza, fonte de criminalidade. Crimes que continuarão a ocorrer mesmo na atual sociedade materialista, de consumo dominada pela tecnologia, pois o mistério da alma ou da natureza humana ainda permanece.

Embora sentimento comum, natural em qualquer ser vivo (não somente no ser humano), facilmente torna-se obsessivo, delirante, como uma verdadeira forma ou espécie de paranoia (a mania ou delírio de ciúme, ao lado da mania de grandeza e a de perseguição, como as três clássicas manifestações ou formas de paranoia, segundo a Psiquiatria), fazendo com que o ciumento viva em um inferno de dúvidas, de suspeitas, de desconfianças imaginárias, sem base na realidade, tornando também um inferno a vida da pessoa amada. 

2 - Particularmente, o ciúme torna-se mais perigoso, mais tendente a umdelito (sobretudo o de homicídio ou lesão corporal) quando fica dominado pela falsa ideia fixa de ´traição` que de simples dúvida passa a ser na psicologia do ciumento uma ´prova de certeza`, de ´verdade` que nenhuma evidência ou argumentação contrária conseguirá afastar de sua mente delirante e toda a sua vida mental ou psíquica é escrava desta única falsa ideia, divorciada da realidade. Psicologia, aliás, magistralmente descrita por Shakespeare (o mestre maior das paixões humanas) em sua tragédia ´Othello`, símbolo perfeito do homicida passional.

3 - Por outra parte, o drama torna-se mais próximo do crime porque no homem o seu ciúme intenso tem origem predominantemente sexual, ´é o orgulho do macho ferido` que não admite ser abandonado, desprezado ou substituído por outro amante geralmente imaginário, suposto, ainda especificamente na raça latina que é mais passional que racional ao contrário do que sucede em geral, com a germânica ou a da Escandinávia. No seu aspecto jurídico penal, perante o CP vigente aemoção ou a paixão não isenta de pena, pode em alguns casos reduzi-la. Essencialmente o ciúme é ´o medo da perda da pessoa amada` que é considerada como ´objeto`, não como ´pessoa`, objeto do qual o ciumento julga que tenha posse exclusiva, absoluta, única, seja qual for a classe social ou condição financeira, nível cultural, faixa etária do ciumento. Ainda, ciúme não é prova de amor, como muitos pensam, e sim de amor próprio, de amor deturpado ou deformado. 

5 - Psicologicamente o criminoso ciumento através do seu delito manifesta um sentimento de injustiça que julga que sofre, surgindo em sua mente doentia a reação delituosa como uma ´ação de justiça` sofrida com ´a traição` (mais imaginária que real) que não mereceria e assim a vítima ´merece` ser punida.
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