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12/12/2010Ciclo vicioso - Pedro Nunes Filho
12/12/2010
Publicado na Folha de Pernambuco - 12.12.2010
Todos os dias os governantes propagam notícias de ações destinadas a melhorar o ensino no Brasil. No entanto, nenhuma das propostas apresentadas vai ao cerne da questão ou à raiz mestra do problema, que é formação e remuneração.
Exagerando a comparação para destacar a importância do educador, pode-se dizer que uma escola funciona sem prédio, sem bancas, giz, quadro-negro ou merenda. Funciona até sem livros, mas não funciona sem professor, profissional em via de extinção neste País chamado Brasil. Estatísticas recentes dão conta de que faltam 250 mil professores nos Ensinos Fundamental e Médio, sem se falar no déficit existente na Educação Infantil.
O fato é que ninguém quer mais ser professor. Trata-se de profissional que perdeu voz e prestígio na sociedade. Por que isso aconteceu logo num País de analfabetos como o Brasil? Por quê? É simples. Para se degradar qualquer carreira, basta tão somente exigir dos profissionais que a compõem jornada de trabalho longa e remuneração curta. Sem dinheiro, o professor se veste mal, anda a pé, mora em periferias, não tem tempo para estudar e atualizar-se, não dispõe de dinheiro para inserir-se na era digital e usufruir os benefícios da comunicação globalizada, se alimenta mal, dorme pouco e nem pode se dar ao luxo de pagar plano de saúde para si e para os dependentes. Quando adoece vai mesmo é para as filas da saúde pública.
Pessoa detentora de tamanha miserabilidade, acaso, pode desfrutar de algum prestígio numa sociedade como a nossa que só valoriza quem tem? Claro que não! Por isso ninguém quer mais ser “trabalhador do ensino”, pecha que o próprio sindicato da categoria achou por bem impingir aos educadores, aumentando ainda mais o desprestígio de que padecem.
Pior ainda que ganhar pouco é o desgaste gerado no convívio com os alunos em sala de aula na luta diária para empurrar-lhes goela abaixo metodologia e currículo completamente superados. Some-se a isso, a dificuldade de manter a disciplina e as agressões de que são vítimas dentro da escola. Mas este é assunto de tanta gravidade que merece reflexão à parte.
Resultado: há muito tempo que jovens talentosos fugiram dos cursos de pedagogia e das diversas licenciaturas que habilitam ao magistério.
Formou-se um ciclo vicioso: o professor não estuda porque ganha pouco e ganha pouco porque não estuda. Urge quebrar esse ciclo.
Vítimas de escolaridade deficiente, grande número dos chamados “trabalhadores da educação” apresentam dificuldade em escrever e, em razão disso, elaboram avaliações obscuras, com questões sem clareza redacional, que dificultam a compreensão até mesmo dos alunos que, sozinhos, aprenderam a aprender. Como pode transmitir conhecimentos básicos quem carece deles?
Trata-se, pois, de um conjunto de deficiências que constituem forte empecilho ao crescimento do país e nos deixa marcando o passo no 53° lugar no ranking mundial dos sistemas educacionais que produzem os melhores resultados. Na América Latina, estamos atrás do Chile, Uruguai e México. Sem uma reforma radical fica bastante difícil acreditar na possibilidade de uma economia sustentável de que tanto se fala ultimamente.
O fato é que, sem professor competente e bem remunerado, escola alguma forma alunos competentes. E sem profissionais qualificados, o Brasil perde a corrida dentro do próprio BRIC, grupo de que nosso País faz parte juntamente com a Rússia, Índia e China. Só para se ter uma idéia, a China é o país estrangeiro que manda o maior número de alunos para a Universidade Harvard e consta que está se preparando para investir 1 trilhão e 500 bilhões de dólares em tecnologia de ponta na próxima década. Com isso, pretende deixar de fabricar bugigangas, para exportar somente produtos de alta qualidade. Para se dar um passo dessa natureza carece, primeiro, investir muito em educação. É o que eles fizeram.
E nós? Só existe uma saída para o Brasil: reformar por completo o caótico e arcaico sistema educacional, atrair alunos talentosos para a área de ensino mediante remuneração compatível, e depois, é claro, investir em meritocracia, porque sem ela, nada vai à frente em matéria de educação voltada para o desenvolvimento.
