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05/11/2010Cheiro e memória - Fernando Araújo
05/11/2010
Publicado no Diario de Pernambuco - 05.11.2010
fernandojparaujo@uol.com.br
A ciência tem demonstrado que a memória olfativa é capaz de ativar as mais antigas emoções. O cheiro de bolo no forno, por exemplo, lembra a casa da vovó. Meu avô queimava raspa de chifre de boi para atrair a serpente escondida entre paus e pedras. As vezes isso dava certo. Não sei se por coincidência ou pelo barulho que as pessoas faziam, assustando o animal. Prova científica, jamais tive. No mundo selvagem, o cheiro está diretamente ligado à sobrevivência. O olfato conduz as feras ao alimento. Também por ele, escolhe-se um parceiro, bem como se previne do perigo. Aliás, em certos animais o potencial olfativo é enorme. Coelhos e cachorros podem guardar até 150 mil cheiros diferentes, enquanto os homens não distinguem senão 10 mil tipos de odores.
Recentemente foi divulgada uma pesquisa pelo departamento de psicologia da universidade de Rice(EUA), dando conta de que as mulheres dispõem de uma nova arma para detectar as intenções dos homens: o odor. Segundo os pesquisadores, os feromônios (molécula produzida por vários órgãos do corpo) denunciam se o odor do suor é sexual. Ou seja, que ele tem interesse sexual por ela, porque o suor normal é diferente do sexual. Assim, mesmo de forma inconsciente, uma mulher será capaz de farejar as intenções de um homem. Por esta e outras conclusões científicas, o cheiro é fundamental em nossas vidas. Ele nos faz evocar memórias e suscitar emoções. Com efeito, esses atributos caminham sempre juntos, facilitados por nosso nariz, que está ligado a uma das partes mais importantes do cérebro - o sistema límbico.
É, portanto, uma alegria, a de viver e poder cheirar, sem embargo da importância dos demais sentidos. Os profissionais do vinho se orgulham do "bom nariz" que possuem. Dizem, orgulhosos, para nos matar de inveja, que a casta Cabernet Sauvignon, por exemplo, deve ter aroma de frutas vermelhas e tons de hortelã, assim como a Merlot normalmente apresenta o cheiro de ameixas pretas maduras. Já a Malbec tem como característica aromas que lembram frutas pretas (framboesa, groselha) e vermelhas. Em importante livro que publicou - O cheiro das coisas -, Bettina Malnic, doutora em bioquímica e biologia molecular pela USP e pós-doutora em neurociências por Harvard, pioneira no estudo do olfato no Brasil, disse com sabedoria: "Podemos não nos dar conta, mas nosso cotidiano está cercado de cheiros que afetam profundamente nossas vidas - perigo, repulsa, prazer, tristeza, euforia... - e despertam emoções e comportamentos muitas vezes inconscientes. Isto porque, de todos os sentidos, o olfato é o que está mais intimamente ligado às regiões do cérebro envolvidas com estímulos afetivos e memórias". Portanto, cheirar é viver, é recordar!
