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20/03/2011Cenoura de burro - Dayse de Vasconcelos Mayer
20/03/2011
Publicado no Jornal do Commercio - 20.03.2011
dayse@hotlink.com.br
Há duas maneiras de fazer o burro puxar uma carroça: adotar a vergasta ou pendurar uma cenoura na frente dele. No esforço para alcançar o pitéu, o burro sairá do lugar, arrastando a carroça.
Na primeira situação, é o medo que estimula o burro a agir, no segundo, é a motivação interior, algo que se aparenta à manipulação dos dias atuais e que nos leva à ânsia da obtenção de vantagens. A Oração de São Francisco, traduzida de forma cínica, reforça tal entendimento: "Pois é dando que se recebe". Há tanta consciência desta máxima que o americano, pragmaticamente, usa a expressão "I am a big believer that the carrot usually works better than the stick - que poderia ser traduzida como "acredito que a cenoura pode funcionar melhor do que o chicote".
Recordei este fato numa conversa que tive, recentemente, com um membro da magistratura de Pernambuco - por sinal um profissional com uma sabedoria aguda e uma inteligência rara, aliadas a um notável senso de humor. Discorria sobre a Suprema Corte norte-americana e narrava um fato interessante que me levou a pensar na cenoura e no burro.
Para quem não sabe, inexiste previsão constitucional sobre o funcionamento da Corte dos EUA e recrutamento dos seus juízes. O princípio da vitaliciedade é pleno porque inexiste aposentadoria compulsória. O juiz (Justice) abandona o cargo quando deseja, isto é, por renúncia voluntária, exceto nas situações de impeachment.
Um dos juízes da Corte em discussão, já perto de completar os 100 anos, recusava-se a abandonar a função. Os pares percebiam que o colega dormia sempre nas sessões e já não revelava agilidade mental. Certamente outros profissionais também aguardavam a possibilidade de assunção do cargo. Numa reunião privada, sem a presença do velho magistrado, houve a escolha de um profissional habilidoso, manipulador e versátil para apresentar a cenoura ao colega. Cumprido o encargo, o emissário regressou com um largo sorriso nos lábios.
Anos depois, o mesmo juiz bem-sucedido na tarefa passou a revelar os mesmos sintomas do colega manipulado. Outra reunião foi realizada para uso da mesma técnica. Um magistrado ainda jovem assumiu a função de "cenoureiro". Lá, ingressou na sala do colega e passou a conversar sobre vários temas jurídicos na expectativa de encontrar o gancho que lhe permitisse concluir a missão. Afinal, encontrou a abertura e indagou: "Excelência, recorda o caso de um juiz que necessitou da sua intervenção para renunciar ao cargo quando se revelou sem condições mínimas de atuar com celeridade e brilhantismo?" O juiz olhou bem firme para o colega, fez uma pausa, levantou a cabeça, alisou a barba e, olhando para a janela num sinal inequívoco de visualização do passado, comentou: "Estou bem lembrado deste episódio. Foi o único e derradeiro trabalho sujo que realizei em minha vida".
A ilação a extrair é simples: o golpe da cenoura nem sempre é providencial para aquelas pessoas realmente inteligentes e livres. Como é natural, a estratégia - pelo fato de ser inequivocamente eficiente - é tida como irresistível. Nesse caso, a cenoura sempre funciona independentemente da instância: pública ou privada. Passa do homem mais simples até aos altos escalões executivos. Do representante do povo aos administradores do segundo escalão. Nem sequer a Igreja é poupada do cenourismo. Na área política o exemplo mais concreto é o da construção de bases aliadas de um governo. É mesmo difícil governar sozinho. Aquele que tenta, sofre demasiado. A permuta de favores é a tônica. O próprio eleitor é um exímio candidato ao repasto, embora haja exceções à regra. E em todas as instâncias. Ainda bem. Afinal, a frase de Saramago pode ter uma interpretação diferente para os desavergonhados - "Se tens um coração de ferro, bom proveito, o meu, fizeram-no de carne e sangra todos os dias". É a hora e a vez de indagar: Alguém já se perguntou se existe alguma força perversa, invisível e com capacidade para influenciar o nosso comportamento e nos empurrar para a realização de atos repulsivos e ilegítimos, atentatórios dos princípios éticos e do próprio direito? Que forças impulsionam ou manipulam os homens à aceitação de atos sujos em troca de vantagens iníquas?
