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26/10/2009Caruaru de ontem e hoje - João Bosco Tenório Galvão
26/10/2009
Publicado no Diario de Pernambuco - 26.10.2009
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Caruaru, aos Sábados tinha feira grande. Quatro e trinta da manhã, o orvalho ainda cobria as ruas, os chapéus dos feirantes e xales das matutas protegia do frio matutino. As panelas das barracas eram areadas para cozinhar os bodes e as galinhas, os cuscus e os inhames! As madrugadas na capital do agreste eram frescas e úmidas apesar do verão. Às cinco da manhã boa parte da cidade rezava a N.S. das Dores, na Igreja Matriz, enquanto os galos cantavam à espera de virarem capão de pirão. As barracas de tudo vendiam, e as de Vitalino exercitavam a imaginação dos matutos e crianças com suas belas imagens de médicos, maracatus, dentistas, polícias e ladrões, tudo num colorido maravilhoso, que nos faziam ouvir os pipocos dos bacamarteiros e os mugidos dos carros de bois erguidos no barro agrestino. O cheiro das frutas enchia a Rua do Comércio, eram mangas, imbus, cajás, melancias, fruta de palma, cajus, goiabas, laranjas e limões. No beco do Mercado de Farinha ocheiro forte da mandioca pulverizada e quente que provávamos de mãos cheias. Os cegos pedintes tocavam seus berimbaus com melodia alegre e ligeira.Os carregadores de fretes disputavam à clientela carregando seus balaios e suas rodias. Os matutos vestidos de calças de alvorada azuis, com seus cigarros de palhas ou seus cachimbos em suas bocas tortas e de poucos dentes. Nos becos perpendiculares à feira apregoavam os marchantes carneiros gordos castrados e os granjeiros proclamavam: olhem os ovos! A feira era organizada em vários setores. Bonecos de barro. Barracas de comidas, com guisados, figo de alemão, cuscus e milho verde, tendas de fumo em rolo, de carne de charque, panelas, talheres e peixeiras. Roupas e potes.Brinquedos e gibis usados. Tinha também o setor de troca-troca, onde um jumento podia virar uma espingarda, um punhal converter-se numa galinha, um retrato de Padre Cícero num rádio grande de pilha. Os cantadores de viola e repentistas formavam grandes rodas com seus versos de improviso para delírio dos feirantes e passantes. Na Igreja da Conceição, às 06h00min horas tinha a Missa do Monsenhor Tavares, sacerdote e grande orador de sotaque lusitano, apaixonado pelo seu ministério. Agora Caruaru mudou e para melhor. Perdeu sua ingenuidade matuta e ganhou em dinamismo econômico e social. As muriçocas quase que desapareceram, a água corre em quase todas as torneiras e o comércio é pujante. A população mudou de perfil, muitos chegaram a Caruaru para o trabalho em suas fábricas e estudar em suas escolas. Agora a BR232 começa a dar seus frutos acelerando o desenvolvimento do agreste, que já cresce em ritmo superior ao Recife.
