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08/07/2009Cartas - Arthur Carvalho
08/07/2009
Apesar dos e-mails, ainda se escreve carta, sim. E carta à mão, com caneta, como essa do pintor José Cláudio, de Olinda para o mundo.
José Cláudio mora no sopé da Igreja das Beneditinas, no Bonsucesso, numa casa mais ou menos isolada da civilização, com bela vista panorâmica para o mar do Bairro Novo. Além de pintor consagrado, José Cláudio é cronista da revista Continente, e ninguém no Recife ou alhures escreve em estilo mais despojado, gostoso e simples do que ele. Ó, meu Deus, por que não simplificar as coisas? O mundo já é tão complicado! Ainda bem que o bispo vai embora, e já vai tarde, sem deixar saudades.
“Só agora me dou conta de que fui ingrato com o Conte Grande não procurando saber dele e se não fosse aquela sua lembrança que bem me foi possível apreciar pois sempre olhava para aquele marzão da Bahia e até quando morei uns tempos em São Paulo subi alguma ladeira pensando vê-lo quando chegasse no alto, aí era que caía na realidade e via que não tinha mar, se não fosse essa sua lembrança talvez aos poucos ele fosse entrando nessa região da memória em que a gente não mais distingue o que viu do que ouviu dizer." Grande José Cláudio.
Correspondência de Gilberto Maciel Santos, baiano de Juazeiro, uma figuraça. Fomos colegas no Baneb, ele, gerente, eu, advogado, ficamos amigos, e ele, atendendo aos chamamentos do sangue cigano e de intrépido aventureiro, se picou pro Norte em busca de tempos melhores e novidades, onde mora até hoje.
“(...) Nos últimos anos, tenho vivido no Estado de Roraima, longe dos amigos e das minhas raízes. Apesar deste sacrifício, não tenho muita coisa a lamentar a não ser da imensidão da floresta amazônica, que às vezes, tenta matar a minha alma e adormecer meus sonhos mas não consegue.”
Prossegue dizendo que "O Estado tem apenas 18 anos de vida, população de 450 mil habitantes, a capital Boa Vista, que é muito bonita e plana por todos os lados, não tem miserável nem pedintes, não tem enchentes, nem seca, 90% da população são de fora, sendo 60% maranhenses, não tem engarrafamento de veículo, estamos próximos do primeiro mundo.
O calor é insuportável e (quem não tem um aparelho de ar-condicionado não dorme), os barzinhos são escassos. A passagem aérea é a mais cara do universo, os índios mandam no pedaço, temos que aprender a falar o inglês e o espanhol, a vida é muito cara, tapioca aqui é beiju." E termina com uma grave notícia: "A cachaça daqui não é boa."
Por fim, e-mail da gaúcha Martha Fortuna queixando-se do frio intenso que tem feito em Porto Alegre. Mesmo o pessoal acostumado estranha. Bem que ela poderia tomar uma avião e se aquecer na temperatura amena do Recife, mas temo convidá-la. Vou levá-la a passear no Centro, na imundice da Avenida Guararapes para ser importunada por camelôs e mendigos? Um Centro que ela conheceu no esplendor de 1956, um pedaço da civilização do Brasil? Aos cinemas São Luiz, Moderno, Art Palácio e Trianon? Vou passar com ela pela Rua Sete de Setembro e pela Rua da Imperatriz? Tomar água-de-coco no Alto da Sé? O Recife que ela conheceu e amou, a cidade que a deixou encantada e saudosa até hoje, não existe mais, encontra-se sepultada para sempre.
