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02/09/2009Cartão vermelho - Arthur Carvalho
02/09/2009
Publicado no Jornal do Commercio - 02.09.2009
E-mail de amiga, fisioterapeuta e leitora, perguntando o que achei do cartão vermelho de Eduardo Suplicy.
No livro Como eles Roubaram o jogo – segredos dos subterrâneos da Fifa, Editora Record, o jornalista David A. Yallop conta que na partida Inglaterra x Argentina, em Wembley, pela Copa de 1966, logo nos minutos iniciais, os argentinos cortavam um ataque após outro dos ingleses com uma série interminável de faltas deliberadas e cínicas.
O nervoso árbitro alemão Kreitlein anotava um número crescente desses jogadores faltosos em seu caderninho. Superando-o nessas atividades - continua Yallop - despontava a grande figura do capitão da Argentina Rattin, queixando-se, sem parar, até figurar também no caderninho por uma entrada desleal em Bobby Charlton. Pouco antes do fim da primeira etapa, Rattin fez vigorosas objeções em seu espanhol nativo contra a anotação do nome de um companheiro de defesa, sendo expulso por Kreitlein. Que nem falou nem compreendeu patavina do que o craque argentino disse. Mais tarde, Kreitlein revelou que a expressão de Rattin tornava-lhe as palavras inteiramente compreensíveis.
Para o resto do mundo a expulsão de Rattin foi uma das maiores injustiças da história das Copas. Um equívoco que contribuiu para a criação dos cartões amarelos e vermelhos, para evitar, como nessa batalha, problemas de comunicação entre juízes e jogadores que não falam o mesmo idioma.
Como se vê, o cartão vermelho, exibido por Suplicy para todo o Brasil, seria dispensável, uma vez que tanto ele quanto Sarney falam a mesma língua ou linguagem. Será que ele vai "aplicar" esse mesmo cartão vermelho em Renan e Collor, ou apenas o amarelo? Collor já recebeu o vermelho que o enxotou da Presidência da República, mas, qual gato de sete fôlegos, retornou à política, impunemente, com gosto de gás e expressões faciais que são o seu encefalograma. Seu conterrâneo Renan Calheiros também deu a volta por cima, regressando à liderança do Senado, olimpicamente, e nunca esteve tão risonho como agora, nas fotos dos jornais e noticiários da televisão. Rindo da Nação e dos eleitores, com certeza.
O mais constrangedor, para nós, nordestinos, é ter que suportar o reles espetáculo diário de vexames, mentiras, balelas e fisiologismos descaradamente protagonizados, entre outros, por Sarney, Collor e Renan, lídimos representantes do que há de pior, mais decadente e nefasto no secular coronelismo do Nordeste. Coronelismo cuja existência historicamente maligna conhecemos bem por ciência própria ou leitura das obras de Jorge Amado (Terras do sem fim, Cacau), José Lins do Rêgo (Fogo morto), Graciliano Ramos (Vidas secas), etc. E que vem se eternizando, através dos tempos, e resistindo, qual erva daninha, a qualquer sopro de modernidade e democracia.
