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27/10/2010Cambulhadas - Arthur Carvalho
27/10/2010
Publicado no Jornal do Commercio - 27.10.2010
Fim de noite nublada, chuvosa e fria quando entrei no Texa’s Bar com o poeta Thomás Seixas. Thomás gostava de madrugar no Texa’s depois de escalas pelo 28, Silver Star e Moulin Rouge.
O Texa’s regurgitava de marinheiros do cruzador Tamandaré, tripulantes do paquete Comandante Capela, proveniente do Porto de Cabedelo, e de marujos de barcos pesqueiros coreanos e japoneses do Kaiko Maru. Quem ali ingressasse, naquele momento, sentiria o odor acre de peixe e maresia, entranhado nas roupas tresandando a azedo, manchadas de sangue de albacora, desses marujos, e do perfume falsificado e barato dos malandros, policiais, travestis, cafetinas, prostitutas, traficantes e boêmios. Inalava-se, também, sem querer, a fumaça de cigarro americano e de maconha que impregnava o ambiente, reduzindo a oxigenação e dificultando a respiração dos fregueses.
Sylvio Caldas interpretava o samba Favela, na radiola de ficha, uma tela de Zé Claúdio com o transatlântico italiano Conte Grande emoldurando a parede, transportava o mar para o bar. Thomás tinha me advertido: "Se quiser noitada morna, vamos ao Chantecler ou Flutuante, e depois um camarão ao molho de tomate ou filé com fatia de pão, presunto e fritas no Gambrinus, pra forrar o estômago. Se preferir fortes emoções, o Texa’s." Como preferi o Texa’s, estávamos ali ouvindo o Caboclinho Querido, entram Gilvan Lemos e Fernando Monteiro, Fernando com três livros: O triste fim de Policarpo Quaresma, Memórias de um sargento de milícias e O ateneu. Estranhei porque essas obras podiam estar com Gilvan, enquanto as fitas de Gilda, Arroz amargo e Uma rua chamada pecado, trazidas por Gilvan, com Fernando. Mas ali o que se via, talvez pelo adiantado da hora, era o contrário. Nisso, surgem Homero Fonseca, com Madame Bovary, A condessa descalça e O anjo azul a tiracolo, e Kléber Mendonça com Expresso de Shanghai, A dama das camélias e Vinhas da ira. Teriam vindo de algum festival de cinema? Tentando saber, fomos interrompidos por Thomás Seixas recitando Baudelaire e Rimbaud. Quando Seixas quis declamar Augusto dos Anjos, o escritor Luiz Carlos Albuquerque cortou: "Esse não, esse é comigo!" E mandou brasa: "Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu indo em direção à casa do Agra, assombrado com minha sombra magra, pensava no destino, e tinha medo!" "É de arrepiar!" - murmurou Marcus Accioly, a tudo presente.
Alheia à tertúlia literária, Vanusa Flor de Lis, violenta paixão de Waldemar Machado, flutuava no salão, ao compasso do bolero, soltando os cabelos loiros, com um fuzileiro naval, olhando insistentemente pra mim, procurando Waldemar. Eu deixara Waldemar na Churrascaria Riviera, no Pina, tomando cuba-libre, seu drinque preferido, ao entardecer, na companhia de alegres meninas e de Djalma Procópio, mas me plantei. Vanusa (uma vida de cambulhada) era mulher pra alugar carro de praça e armar barraco com Waldemar no Riviera, rodando a baiana.
O pau cantou, no Texa’s Bar, voaram mesas e cadeiras, quebraram copos e garrafas, japoneses e coreanos distribuindo golpes marciais, entre eles, pra todos os lados, no acanhado espaço do bar, Thomás impassível, como sempre, dando baforadas no seu cachimbo Denny Hill (de espuma de coral), terno de casimira preta, camisa de seda amarela, casca de ovo, gravata italiana com alfinete de pérola, polainas, bengala de jacarandá, castão de prata, relógio de algibeira Patek Philippe de ouro, correntão de ouro. O cacete comendo no centro, e ele extasiado: "Maravilha! Maravilha! É o próprio Lord Jim! O próprio Conrad! O coração das trevas!"
Foi quando chegaram, esbaforidos, Renato Carneiro Campos e o vate Garibaldi Otávio, com recado urgente de Selma Rosa de Maio, pra mim. Mas essa é outra história. Depois eu conto.
