Bugigangas, pulseiras e miçangas - José Carlos L. Poroca

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18/03/2011

Bugigangas, pulseiras e miçangas - José Carlos L. Poroca

18/03/2011
Bugigangas, pulseiras e miçangas - José Carlos L. Poroca

Publicado no Diario de Pernambuco - 18.03.2011

jcporoca@uol.com.br

'baubles, Bangles and Beads' foi uma música gravada por Peggy Lee na década de 50 e regravada por Marlene Dietrich, Julie Andrews, Sarah Vaughan e mais uma dezena, pelo menos. A letra também não diz nada demais e é mais uma feita para aliviar ou piorar a chamada 'dor de corno'. Não é do ´meu tempo` e não é a canção mais famosa da cantora norte-americana. A mais famosa - essa sim - é ´Fever`, que foi gravada pela própria e por celebridades como Elvis Presley e - pasmem! - Madonna e Beyoncé. ´Fever` não fez só sucesso pela letra avançada para os padrões conservadores da época, mas, pelo jeito especial de Peggy Lee interpretá-la, com uma performance própria, acompanhando o ritmo estalando os dedos e com uma mise-en-scène que ficou como sua marca registrada.

Vida de artista não é fácil. Contam que a cantora americana, antes de cantar ´Fever`, colocava um produto nos dedos, para que os estalos produzissem o som adequado esuficiente que a música exigia. Não me perguntem ´que produto era esse?`; não vou saber responder. Cada interpretação somava cerca de três minutos e meio. Ela cantava, se mexia sensualmente com paradinhas (ouçam a música e vejam a imagem na Internet - entenderão melhor) e, claro, estalava os dedos. Faço o trabalho de ressuscitar Peggy Lee não à toa e quero, desde já, dizer que também temos artistas iguais ou melhores - de ambos os sexos. Nas terras de cá, tive a oportunidade de ver Jackson do Pandeiro - ao vivo e através do cinema - dar shows de interpretação: cantava, dançava, tocava pandeiro e tinha o que chamam de swing, como poucos. 

Trazer Peggy Lee para este espaço foi uma forma que encontrei para tentar dizer que arte é arte aqui, nos EUA ou no Togo. A arte musical independe de idioma, ritmo, sonoridade e outros itens que quem é do ramo sabe explicar melhor. Não quero entrar na polêmica de que existem dois tipos de música (popular e clássica). Pra mim, só existem dois: a boa e a ruim. Nada impede que ouvidos gostem simultaneamente de Bach e de Luiz Gonzaga, mesmo com as distâncias que existem em tudo que fizeram. Melhor não prosseguir, pois o assunto abre discussões das mais variadas e pode suscitar xingações desnecessárias.

Convidar a intérprete de ´Fever` para este espaço foi uma forma que encontrei para tentar dizer que, no palco, para mostrar que é bom/boa, não precisa de uma parafernália de luzes a laser, caixas com milhões de watts, malabarismos, etc.; independe de pulos, gritos, roupas de pavão e, muito menos, exercer 'comandos' de gestos e movimentos - como se a plateia estivesse numa aula de aeróbica. No Brasil - e não é de hoje -, nesse terreno, com tudo o se vê (e ainda não vimos nada), estamos mais para bugigangas, pulseiras e miçangas; joias, pouco, quase nada. Fever I'm on fire. 

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