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24/07/2011Brasil sem Lei - Pedro Nunes Filho
24/07/2011
Publicado na Folha de Pernambuco - 24.07.2011
Outro dia, eu viajava pela BR 412, que liga Sertânia a Monteiro. Estrada movimentada. Automóveis, motos e grandes caminhões que cortam caminhos para encurtar as distâncias. Aquela rota, séculos atrás, fora caminho indígena. Por lá, os habitantes primitivos dos sertões paraibanos se deslocavam em tempos de penúria para se salvar com as riquezas de caça e pesca existentes às margens do Rio Miraculoso. Era assim que os índios chamavam o Velho Chico, somente batizado de São Francisco com a chegada dos brancos invasores.
Toda vez que passo por ali, me lembro da saga de Piragibe, cacique tabajara que, na segunda metade do século XVI, depois de obter permissão dos sucurus, passou por aquele boqueirão de serra, conduzindo 5 mil índios, em direção ao litoral paraibano, marcha ou deslocamento que teria durado 11 anos.
Fazendo aquele percurso histórico e me lembrando das fantásticas epopeias de valentes guerreiros indígenas, de repente, o motorista atendeu à ordem do pare-e-siga, na frente de quem, obedientes, todos os carros se perfilaram. Foi aí que reparei em frente a meu carro algo incomum: uma rural Willys, dos anos 1950, entupida de passageiros. Um deles em pé, equilibrando-se na tampa aberta da mala, agarrava-se como podia para não voar nas curvas da estrada, que são muitas. Além de uns dez passageiros, a velha rural, veículo duro na queda, transportava uma carga imensa: poltronas, bujões de gás, de água, cama, colchão, grades de refrigerantes, galinhas, bacurins gritando, bodes berrando, o diabo a quatro... Saltei do carro, fiz várias fotos e, enquanto o pare-e-siga não trocava o sinal vermelho pelo verde, ainda tive tempo de perguntar ao motorista da rural:
-Vende?
- O quê? - perguntou, tantos eram os itens que conduzia.
-A azulzinha!
- Quinze mil! - respondeu, sem muito interesse em fechar negócio.
Nisso, o sinal mudou e a fila de carros seguiu em frente. Motoristas felizes, vendo acontecer o recapeamento do asfalto, e eu mais feliz ainda com a obra da transposição que corre margeando a estrada.
Como aquela rural vai e vem trajeto todos os dias com o mesmo tipo de lotação, figuro que por ali não costuma passar nenhuma patrulha de Polícia Rodoviária. Ou se passa, os policiais fecham os olhos e deixam as velhas rurais rodarem do jeito que seus choferes querem, pondo em perigo não só as pessoas que nela viajam, mas também quem transita por aquele boqueirão de serra, trilha primitiva dos índios, sem dúvida alguma, muito mais civilizados que nós.
Eita, Brasil sem lei!
