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14/03/2011Bestialidade do humano - João Bosco Tenório Galvão
14/03/2011
Publicado no Diario de Pernambuco - 14.03.2011
Jbtg@uol.com.br
Sem dúvidas somos animais! Recentemente li do escritor japonês Takiji Kobayashi a reedição do bestseller O Navio dos Homens, edição portuguesa da Editora Clube do Autor - Lisboa, cuja reedição americana vendeu 1.800.000 exemplares, onde o romancista descreve a saga e os sofrimentos de homens comuns da cidade Hakodate, convertidos em pescadores. A ardilosa imaginação dos empresários nipônicos no início do século 20 seduzia simples aldeões, com a promessa de salários numa terra em crise. O trabalho descrito no mar do Kamchatka torna os padrões da escravidão no Brasil paradisíacos. Pela força homens simples eram obrigados à pesca no mar revolto em condições sanitárias negadas aos porcos, alimentados com parcos restos da pesca e controlados por espancamentos e, em muitos casos, com a severa punição de serem jogados ao mar. Os jovens convertidos em pescadores pelo canto da sereia moeda, diante das torturas extremas, onde lhes era negada a chance de morrer, arrependiam-se do nascimento.
O terror era físico e psicológico. O próprio escritor, que foi membro do Partido Comunista Japonês, após a publicação do livro sobre o drama dos pescadores, foi preso e torturado por várias horas, falecendo e virando símbolo dos oprimidos do seu tempo. Outra obra magnífica, o último livro de Vargas Llosa, O Sonho do Celta, já lançado em Portugal, descreve as atrocidades cometidas por empresas exploradoras de borracha na Amazônia peruana, onde milhares de índios e caboclos foram escravizados, barbaramente torturados, tendo suas mulheres e prole como reféns, cujo resgate eram as cotas do látex. O aprisionamento das mulheres e filhos impedia as fugas e suicídos, pois os que fugiam ou suicidavam submetia os reféns a uma pena exemplar.
A narrativa das torturas envergonha os humanos. Espancamentos, mutilações, esquartejamentos, assassinatos de mulheres e filhos, tudo no afã de lucros em favor de gordos empresários londrinos. Cem por cento dos escravos portavam algum tipo de mutilação física. Outros livros descrevem as situações dos negros escravos nas Américas, onde as técnicas de tortura importadas da Europa proliferaram sem nenhum limite. Em Praga visitei o Museu das Torturas e tive vergonha de ser católico. Os artefatos de tortura usados pela Inquisição contra seus réus são coisas de doido, de loucos, são dos anjos insurretos... Do garrote vil, usado até pouco tempo pela ditadura de Franco na Espanha, até jaulas-vitrines, onde os adversários da fé (ou do clero) eram expostos após torturas vis, padecendo pelos ferimentos e exposição desprotegida ao sol ou ao frio. Um incontável número de máquinas foram idealizadas, cada uma trazendo uma nova forma de maldade, criações do único animal da face da terra que, realmente, pode ser fera, pode ser besta. No Brasil tivemos torturas por motivos políticos e temos ainda hoje, como procedimento policial investigativo. As técnicas vão de espancamentos, choques elétricos, paus de arara, tudo, graças a Deus, com diminuição de frequência. Na Argentina, que se pretendia civilizada e europeia, a ditadura roubava os filhos dos torturados e desaparecidos. A globalização veio primeiro através da tortura.
