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12/01/2011Barra de sabão - José Carlos L. Poroca
12/01/2011
Publicado no Diario de Pernambuco - 12.01.2011
jcporoca@uol.com.br
A memória ainda está boa, mas, vez ou outra, dá sinais de falha. Alguém já me falou que esses curtos são naturais para quem já passou dos 40. Não lembro se já tive a oportunidade de narrar um episódio que vivi no aeroporto do Rio há cerca de oito ou nove anos. Também não lembro se era um final de ano. Só sei que estava a maior zorra: filas enormes, muitas perguntas e poucas respostas, enfim, um caos. Numa das filas, encontrava-se o ator Rogério Cardoso, que durante anos fez na TV o personagem Rolando Lero na ´Escolinha do Professor Raimundo`.
Rolando Lero, perdão, Rogério Cardoso assumiu - sem ninguém pedir, é bom dizer - o papel de porta-voz dos passageiros. Subiu no balcão e, em voz alta, começou a xingar a companhia - useira e vezeira na arte do desrespeito -, chamar pelo 'dono', perguntando se aquilo era casa de Mãe Joana, etc. Em menos de dois minutos apareceram vários funcionários e a situação melhorou. Quandodigo ´melhorou`, quero dizer que ficou menos ruim. Consegui embarcar. Rogério Cardoso também ´viajou`, no dia e, mais na frente (2003), vítima de um infarto.
Por necessidade, tive que fazer (mais) uma viagem de avião recentemente. Caos. Voos cancelados e atrasados, pessoas nervosas discando para familiares, uma feira, das piores. O meu - que não tinha nada de meu - também atrasou. Ao meu lado, na outra fila, sentou uma senhora nervosa, chorando, sendo atendida pelos comissários. Ainda chorando, disse ´estar no limite`. Não entendi bem a história, mas a passageira estava doente, o voo original havia sido cancelado, ela tinha um compromisso e, pelo que pude escutar, a coisa estava pra lá de feia.
Ressalto, para não dizer que estou sendo injusto, que os funcionários que ficam nos balcões e que são ofendidos e agredidos, não têm culpa no cartório. Eles não fazem tabelas de voos, não vendem passagens em número maior ao que as companhias podem oferecer, não contratam equipes para atender faltas e excesso de jornadas. Cumprem ordens e pagam o pato. O problema não é de hoje e nada para melhorar foi feito. Aplicam uma multazinha aqui e outra ali, com direito a recurso e - quem sabe? - com possibilidade de esquecimento, nunca se sabe.
O que fazem com os passageiros que necessitam se locomover pelos céus do Brasil é, em síntese, o que podemos chamar de falta de respeito. O delito precisa ser enquadrado como crime inafiançável, para ver se esse pessoal cria vergonha. Há pouco, recebi telefonema da mulher, a minha, que está noutro estado com uma criança de 1,5 meses, informando que o seu voo foi cancelado. Prêmio: um tíquete alimentação e a possibilidade de voar em outra aeronave, com um atraso de quatro a cinco horas em relação ao voo original. Gosto: de sabão em pedra, dos ruins. Rogério Cardoso está fazendo falta.
