Barão de Suassuna - Orlando Morais Neto

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10/08/2009

Barão de Suassuna - Orlando Morais Neto

10/08/2009
Barão de Suassuna - Orlando Morais Neto
Publicado no Diario de Pernambuco - 10.08.2009

omoraisneto@hotmail.com

Hoje em dia, se me perguntassem qual a maior invenção da humanidade, com certeza, eu responderia que, depois da pipoca, era a internet. Através deste mecanismo, não temos mais limites para o conhecimento. Se, por exemplo, quero informações sobre a natureza jurídica do retículo endoplasmático é só clicar e pronto! Tudo está ao nosso alcance! Este universo infinito, apesar do lado encantador, possui um triste traço. Fora praticamente abolida, a emoção de descobrir, na prática e com dificuldades, o novo. Lembro, com muita emoção, da primeira vez que vi (logicamente, escondido!) uma Playboy (Rosenery "a fogueteira", 1989)! Na atualidade, tudo acaba acontecendo sem a devida sequência normal da vida. Basta você, independente da idade, ter acesso à internet, clicar no "Google" as palavras "mulher" e "nua", que aparece um milhão de sites relacionados, sem qualquer dificuldade e filtragem! A emoção de descobrir, na prática, o novo é algo indescritível! Não existe tecnologia que consiga substituir! Me recordo, inclusive, do meu avô Orlando contando duas histórias que se amoldam perfeitamente à situação. A primeira ocorrera, em meados de 1930, dentro do trem que transportava toda a família Morais de Palmares para o Recife. Meu tio-avô Alcides, vulgo Tio Pretinho, corria de um lado para o outro do vagão gritando, feliz e admirado, do que via pela primeira vez: "Lando, Lando... olha o mar!".

A segunda história fora desenvolvida quando meu querido avô estava ainda de "calça-curta" e estudava no Ginásio Pernambucano. Um belo dia, o diretor da mencionada instituição designou dois alunos (meu avô e seu amigo, Jeová Vanderlei) para irem à residência do Barão de Suassuna entregar-lhe um envelope particular. Na data designada, os dois ansiosos alunos, devidamente arrumados e cheirosos, seguiram viagem. Ao chegarem no "palacete", os dois estudantes logo se depararam com uma estranha e imponente figura, qual seja, o mordomo. Nunca que na vida dos dois imaginavam existir dentrode uma casa um funcionário daquele porte! Que seja... Cada rico com sua mania! Continuando... O distinto empregado, com sua voz fúnebre, comunicou-lhes que o Barão e a Baronesa saíram de cabriolet para se banharem em uma das cachoeiras da propriedade, razão pela qual este iria conduzi-los à sala de estar para que pudessem esperar. Os estudantes, não acostumados com tantas informações, estavam completamente anestesiados. Ficaram praticamente mudos, somente mexendo a cabeça, nas situações de "sim" ou "não". Depois de quase duas horas, o Barão, enfim, chegou. Ao tomar conhecimento da presença dos dois, dirigiu-se à sala, cumprimentou suas visitas e, rapidamente, os conduziu à mesa de jantar. Neste momento, meu avô e seu amigo não sabiam como se portar! Perguntavam-se, em voz baixa, o porquê da existência de dois pratos, de vários talheres e de três taças, se na hora do jantar toma-se, somente, uma sopa de feijão com um copo de suco de fruta? Resolveram então, imitar os movimentos da aristocracia! Ficaram até emocionados quando descobriram que a função do sino existente sobre a mesa era de chamar o mordomo, sem precisar gritar. Muita novidade! Findo o almoço, meu avô entregou, em mãos, a confidencial correspondência! Depois de ler a carta, o Barão, mexendo seu imponente bigode, dirigiu-se ao escritório, sacou uma cédula de dois contos de reis (Até então, os dois nunca tinham visto tanto dinheiro!) e, após entregar-lhes a encomenda solicitada para manutenção do ginásio, pronunciou: "Digam ao meu amigo que a minha casa estará sempre aberta para ele, bem como para vocês, desde que não seja para este fim! Passem bem!".

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