Avaliar para melhorar - Pedro Nunes Filho

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13/03/2011

Avaliar para melhorar - Pedro Nunes Filho

13/03/2011
Avaliar para melhorar - Pedro Nunes Filho

Publicado na Folha de Pernambuco - 13.03.2011    

Pouco mais de um mês do início das aulas, passado o Carnaval, as escolas começam a divulgar os calendários de avaliações, como se esse fosse o momento culminante da instituição. Poderia até ser, mas não é. Vejamos as razões.

Desfrutando da condição de leigo, permitam-me provocar algumas reflexões a respeito do secular processo de avaliação escolar que vigora no Brasil. 

Com todo o respeito aos mestres e mestras que, imbuídos de grandes ideais, dedicam suas vidas ao magistério e por isso mesmo merecem aplausos, acho que a avaliação de aprendizagem não deve ser vista como o momento mais importante na vida de uma escola, muito menos na vida dos alunos, como o sistema predominante quer que seja. Para começo de conversa, pergunto: por que a avaliação de desempenho escolar é parcial? Quero dizer, por que só o aluno é avaliado? Por que os demais atores que participam do processo não o são? Julgo que materiais didáticos e metodologias deveriam também ser submetidos a algum critério de avaliação. Se a nota é tão importante, por que os demais itens do processo não merecem notas? Sinceramente, acho injusto avaliar somente o aluno e ainda imputar-lhe notas baixas, quando, muitas vezes, quem merece a nota baixa não é nem o professor, e sim, o processo, desgastado ao longo dos séculos e pedindo reforma, olhar crítico e inovador. A avaliação escolar do Brasil, com certeza é um ato injusto e até inconstitucional porque fere o sagrado direito de defesa que é corolário dos direitos humanos previstos no art. 5º da nossa Carta Magna. O aluno prejudicado não tem a quem recorrer e finda achando que a burrice é mesmo dele e não do processo como um todo.

Além disso, é pena ser um período de estresse e tensão para alunos e professores. Para os alunos, porque, ao invés de lhes ser cobrado o que sabem, normalmente os examinadores cobram o que já sabem que eles não sabem. Para os professores, porque as coordenações pedem urgência na entrega dos originais, na correção das provas e mais ainda na devolução das notas, dados estatísticos frios, cuja única explicação para as notas baixas é: “Os alunos não estudam!” Verdade. Os alunos não estudam mesmo! Mas ninguém pesquisa a verdadeira razão por que eles não estudam. Ninguém! As notas, e somente elas, têm o condão de explicar tudo.

Não estou contestando a avaliação propriamente. Estou, sim, contestando sua total inutilidade numa época em que todos os processos são repensados e adequados, menos a avaliação escolar brasileira.  Trata-se de ato pedagógico que deveria ser bem estruturado e revestido de muita responsabilidade para que não se jogue a carapuça do fracasso somente na cabeça do mais fraco que, vítima do processo, resta indefeso: o aluno.

Como se trata de uma exigência legal, na prática, sem objetivos definidos, finda mesmo é se transformando num momento de ansiedade e desgaste para todos ou, pior ainda, num instrumento de poder nas mãos de professores autoritários que, muitas vezes, se utilizam da nota e do poder de reprovar como meio para obter disciplina. Professor que elabora prova de encomenda ou que se mostra tenso no momento de aplicá-la revela ineficiência. Ou não teve competência na hora de ministrar os conteúdos, ou lhe falta um dado indispensável às relações e à vida de um educador: afetividade. Ninguém aprende sem que a relação seja permeada de afeto e firmeza, ao mesmo tempo. 

Disse-me um professor em correspondência via e-mail: “Tudo isso é muito bonitinho, mas venha ficar um mês como professor da escola pública, para  ver como tudo é muito diferente da teoria. Cada vez ficamos mais encolhidos ameaçados por direitos da criança e do adolescente. Será que nenhum direito nos protege? E as agressões e ameaças que sofremos de alunos mal-educados e sem limite algum, como deverá ser tratada?” 

O professor que me escreveu tem tanta razão que não consigo sequer deixar seu comentário para um próximo artigo. A única explicação que tenho é que tudo resulta de um sistema educacional falido e caduco, no qual ninguém tem coragem de interferir, modificando-o e adequando-o à realidade do mundo atual, muito distante e diferente dos padrões seculares que teimam em persistir. Não quero me distanciar muito do foco que é avaliação, mas tudo passa pela necessidade de reforma das mentalidades, o que significa investir muito tempo e dinheiro na formação dos professores. Quer queira ou não, mesmo existindo no mundo globalizado ricos espaços de aprendizagem fora da escola, os professores continuam sendo atores principais e insubstituíveis do processo educativo, razão por que não perdem espaço nunca.

Acho que, quanto mais natural for a avaliação, melhor. Ideal seria que os alunos estivessem preparados para serem avaliados a qualquer momento. Os bons resultados que obtivessem revelariam saberes incorporados para sempre. 

Alunos mal orientados tornam-se imediatistas. Estudam pela nota. Após a prova, não apresentam o menor interesse em transformar as informações em conhecimentos aprofundados e permanentes. De modo que pouco ou nada fica do que ouviram em sala de aula onde somente o professor fala e todos fingem escutar, mas não escutam. Só conversam, para desgaste do mestre numa escola que perdeu a trilha e não encontra saída.

Seguindo o mesmo viés crítico, provas que dão ênfase à memória são excelentes estímulos para que os alunos estudem de maneira errada. Avaliações desse tipo desenvolvem comportamentos padronizados que levam os estudantes a se tornarem grandes imitadores e repetidores de conteúdos apenas memorizados. Cabe à escola estimular seus alunos a adotarem atitudes ativas e críticas, desenvolverem interesse por inovação, criatividade, reorganização, descoberta cooperação.

Não há dúvidas de que a Escola brasileira precisa descobrir seu novo papel no mundo globalizado. Estudar com medo de tirar notas baixas e ser reprovado não é um estímulo adequado a crianças, adolescentes e jovens que precisam enfrentar os desafios de grandes mudanças que estão acontecendo ao nosso redor com velocidade espantosa. Difícil é descobrir um processo de aprendizagem que contenha algo desejável e vital aos alunos. Só a aprendizagem adquirida com prazer se torna duradoura e produz resultados.

A maior parte dos conhecimentos adquiridos pelo ser humano acontece de forma espontânea, sem necessidade de avaliação, quantificação ou notas. Por que no processo de aprendizagem acadêmica há necessidade de avaliar os alunos? Por quê? A avaliação só tem sentido se for para interferir e melhorar o processo, corrigindo erros e inadequações.  Fora isso, realmente, não se justifica.


 

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