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16/01/2011As cobras do serpentário - Pedro Nunes Filho
16/01/2011
Publicado na Folha de Pernambuco - 16.01.2011
Um dia, fui visitar o Instituto Butantã, próximo ao campus da USP, onde eu cumpria programa de estudo. Fiquei impressionado com o serpentário e mais ainda com o tratador das cobras. Era um cearense nascido e criado no pé da serra do Ibiapaba. Alto, magro, moreno, cabelos grisalhos, olhos apertados de ancestrais indígenas, beirando os 70, falava manso, arrastado e solene feito fosse um profeta. Transitava entre as cobras sem temor, quase pisando em algumas delas que mal se mexiam do lugar. Umas tinham peles lisas, outras, escamosas e repugnantes. Estiradas, contorcidas ou em rodilhas, pareciam fartas e fingiam adormecidas, sem estarem. Cascavéis eradas, com guizo de muitas rusgas na ponta da cauda, inquietas jararacas de rabo fino, madre cascavéis traiçoeiras, jararacuçus de malhas escuras, belas corais e muitas outras desconhecidas.
Nem careceu fazer alguma pergunta ao tratador de cobras. Bom comunicador, bastou fazer-lhe discreto sinal, simpático e prestimoso, de dentro de um dos serpentários, achegou-se a mim e foi logo explicando: “Antes de pegar o jeito dessas bichinhas, fui mordido várias vezes por elas. Agora conheço todas as cobras do meu serpentário e aprendi a lidar com suas raivas, vontades e traições. Figuro que nos caminhos da vida existem muitas serpentes também. Umas dão o bote e se escondem; outras se escondem primeiro para depois dar o bote. Algumas são tão perigosas que Deus achou melhor botar-lhes um guiso na calda. Quando ouvi-lo chocalhando, afaste-se. Cuide de conhecer todas as serpentes que andam soltas por esse mundo afora. Cada uma tem seu veneno, seu perigo e seu jeito de morder!” riu e foi embora cuidar de seu perigoso labor.
Pensando bem, o velho tratador de cobras tinha mesmo razão. Serpentes há por toda parte: nos partidos políticos, nas equipes governamentais e palácios reais, nos quadros das empresas, em sindicatos, clubes sociais e esportivos, nas escolas e até nas igrejas, onde custa a gente acreditar que tem, mas tem. Cada família também possui seu serpentariozinho. Umas mais, outras menos.
Não adianta fugir das serpentes. Melhor conhecê-las e aprender a conviver com elas. Se for mordido, dói, mas passa.
É que Deus não povoou o mundo com anjos, nem tampouco com demônios. Povoou com homens, mistura de ambos.
Nada decepciona mais que idealizar comportamentos para as pessoas do nosso convívio, ou não. Quando a gente menos espera, o santo cai do altar e se quebra todinho. O ser humano é feito mesmo é de barro. Daí, sua fragilidade. Carecemos de sabedoria para conviver com as fraquezas humanas. Isso não significa compactuar com os desvios de conduta ou acobertá-los.
Penso que não adianta colocar os bons de um lado e os maus do outro. A vida não é simples assim. Entre os bons, de repente, alguns podem ficar maus e, entre os maus, eventualmente, alguns poderão até melhorar.
Verdade é que, na paz, todo mundo parece santo e sereno. Mas, é no meio do tiroteio que a gente sabe a prestança de cada criatura.
De qualquer forma, importa conhecer bem as cobras dos serpentários onde vivemos, porque, como diz Saramago, referindo-se a certas criaturas: “Por cima lhes sobram rendas. Por baixo, nem fraldas tem!”
São coisas que são... A vida é assim mesmo!
