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21/10/2009As aparências enganam? - Arthur Carvalho
21/10/2009
Publicado no Jornal do Commercio em 21.10.2009
Recém-diplomado em direito, comprei um anel de "chuveiro". Era um anel de bacharel com pedra de rubi, cravejado de brilhantes. Usei esse anel nos primeiros anos de profissão, depois dei ao meu filho Carlos, quando ele se formou em direito. Uma joia bonita e cara pra meu bolso, mas naquele tempo eu curtia uns anéis, umas pulseiras e correntões de ouro. Certa noite, fui assaltado ao sair de um restaurante de Olinda, e me roubaram um relógio de pulso Omega e a pulseira de ouro. O "chuveiro" me foi muito útil quando comecei a advogar, para "impor respeito" no foro e na delegacia de polícia, onde só devemos comparecer de terno e gravata.
Outro dia, eu ia pela Riachuelo, no banco do passageiro da camionete Pajero, do ano, de um executivo. Vestia blazer cor de vinho, camisa social branca, colarinho bem engomado. Pensei que essas cores realçavam meus cabelos prateados, porque, ao pararmos defronte do Colégio 2001, as alunas gritaram, em coro: "Desce, coroa! Desce coroa!" O coroa não desceu - e fez mais. No dia seguinte, passou a pé pelo portão do mesmo colégio, e as meninas nem notaram. Conclusão: o charme não estava no blazer nem na cabeleira prateada do coroa, mas na resplandecente Pajero em que viajava, no banco do patrão, sugerindo prosperidade.
Ganhei de presente uma camisa de malha esportiva, azul, com letras amarelas: Marinha do Brasil, e um boné: Capitania dos Portos. Ontem, cedinho, desfilei garbosamente na pista da Avenida Beira-Rio, com a camisa e o boné, na nossa patota de praticantes de cooper (leia-se caminhada). Um sucesso! "Compraste essa camisa no Cabanga?", perguntou meu vizinho e médico Antônio da Fonte. "Você serviu à Marinha?", indagou, curioso, o psiquiatra paraibano Múcio. "Vais conquistar muitas gatas com essa camisa", vaticinou El Kid, autoridade no assunto.
Misterioso, nada respondi. Saí do cooper, fui às compras no Mercado da Madalena. De propósito, dei uma cédula de cinquenta reais pra tirar dois, ao freguês da macaxeira. O velho, rabugento e marrento, que reclama de tudo, principalmente de troco, olhou bem pra minha camisa e disse mansinho: "Tem trocado, não. Leve, depois o senhor paga..." Nisso, encosta um moço se queixando de que, àquela hora, a padaria, ao lado, ainda estava fechada. Aproveita e conta que do sábado pro domingo não se consegue dormir nas vizinhanças, com a algazarra dos boys ricos, que viram a madrugada na farra, no mercado, o som na mala do carro nas alturas. "Ninguém enfrenta essa turma grã-fina" - desabafou. E, fixando minha camisa: "Tem que ser uma arma forte, de prestígio." Fingi não entender sua equivocada indireta. Afinal, já fui boêmio também, não cuspirei no prato que comi nem sou filho ingrato. Me despedi do cidadão e voltei pra casa. Na esquina de nossa rua, uma dupla de soldados da PM se perfilou e bateu discreta e tímida continência pra mim. A experiência do primeiro dia com a camisa sinalizou quanto nossa Marinha é estimada e respeitada.
P.S. – Excelente o romance Catolé, do escritor Ivaldo Souza do Nascimento, de Surubim.
